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Blog Memória Futebol


A principal função do Esporte: Formar Cidadãos

Autor: José Renato - 20/08/2017   Comentários Nenhum comentário

É inegável afirmar o importante papel do esporte como elemento decisivo na inclusão social, mas principalmente em prol da formação de cidadãos. A lógica existente é óbvia, mas ainda assim merecedora de ser repetida exaustão: “Esporte é Vida, Pratique”. Quem segue por este caminho não tem tempo para olhar por outras alternativas equívocadas.

Ainda nos idos dos anos 1950 meu avô acreditava neste lema quando criou um time de futebol, o Floresta, no quintal da sua casa para que a molecada dos bairros cearenses próximos a Vila Manoel Sátiro e Mondubim pudesse praticar o futebol. O objetivo sempre esteve longe de ser formar grandes atletas, ainda que isto tenha acontecido por décadas, mas sim formar pessoas. Os valores sobre os quais os que praticam qualquer atividade física estão próximos, certamente os afastam das ‘coisas erradas’, costumava falar sua cunhada, Irelda, uma tricolor ferrenha com quem costumava protagonizar impagáveis discussões sobre quem era o melhor time da cidade, o Ceará ou o Fortaleza.

Por conta desta feliz oportunidade de viver neste meio, sempre tive o esporte no mesmo patamar de outras questões tão importantes. Conviver em família, ir ao culto religioso e praticar atividades esportivas se complementavam. Quanto ao time do meu avô, à medida que os anos avançavam, uma clara diferença veio à tona e dizia respeito ao esporte de alto desempenho. Tão logo o Floresta foi inscrito para participar de competições organizadas pela federação cearense de futebol, algumas questões importantes vieram à tona, uma delas com relação as arbitragens que costumavam atrapalhar a nossa equipe suburbana, principalmente quando enfrentava os maiores clubes do estado. Lembro de oportunidades de partidas em que três a quatro jogadores foram expulsos em jogos contra Ceará, Fortaleza e Feroviário, que suavam, para, ainda assim, apenas empatarem.

Mas havia algo que me deixava ainda mais atônito, a reação calma do meu avô diante todos estes fatos. Com uma sabedoria única, originária do semi árido de Russas, ele se resumia a afirmar: “Junior (como ele me chamava), mas o que eu quero é formar homens de bem, e nisso estamos ganhando de goleada”. E foi mesmo. Até hoje são muitas as famílias que lembram dos tempos dos ‘rachas’ no Sítio Floresta. Muitos daqueles meninos, hoje já são avôs e relembram com sorriso saudoso daqueles tempos de alegria sem fim.

Um dia desses, me encontrei com um deles, Fernando Louro, que chegou a se profissionalizar e, até mesmo, a jogar no exterior. Ele comentou que trabalhava o dia todo e à noite se juntava aos amigos para treinar. Logo perguntei: “Como conseguia competir em alto nível desta maneira?” Ele não refutou a fazer uma dura afirmação: “Zé, sempre tive na minha cabeça que precisava estudar e trabalhar. O esporte surgiu como um presente, um sonho meu. Jamais poderia colocar a minha família dentro de um sonho que era apenas meu. Por isso só abri mão de meus estudos e trabalho como office boy, quando vi que poderia viver como atleta.” Conhecendo sua família e formação, não me surpreendi, mas ainda havia algo mais por vir, qaundo ele arrematou: “Sou muito solidário com qualquer atleta que busca o alto desempenho, quando ele reclama da falta de apoio, mas cá entre nós, esporte bom é aquele que forma cidadão, campeão na vida e não aquele que se resume a ocupar de medalhas estantes empoeiradas no canto da sala e o bolso de tanta gente.”

Pois é, durma se com um barulho desses, ainda mais em um país tão carente que luta ainda pela adoção de uma verdadeira política de esportes. Ainda vivemos um modelo de gestão do qual boa parte das atividades esportivas tendem a ser geridas por entidades privadas, que são as federações, sobre as quais recaem interesses muito particulares, em parte delas, nem sempre muito republicanos. Lamentavelmente alguns atletas acreditam neste preceito e entendem que devem ter suas atividades esportivas, seus sonhos, serem bancadas pelo poder público e/ou entidades privadas. Certamente, muito mais que carência, um equívoco de abrangência moral.


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