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Blog Memória Futebol


O mais antigo time de futebol do Brasil: Clube Atlético São Paulo (SPAC)

Autor: José Renato - 27/08/2017   Comentários Nenhum comentário

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Nascido na cidade escocesa de Burnfoot, em 13 de junho de 1844, John Miller, passou boa parte da sua infância avistando os navios que passavam em direção as mais prosperas cidades industriais do país, dentre elas Greenook, Glasgow e Paisley. Já adulto, assim como muito técnicos britânicos de sua época, resolveu mudar para o Brasil, tendo em vista trabalhar na São Paulo Railway, empresa responsável pela construção da estrada de ferro Santos – Jundiaí. Em solos brasileiros, passaria a ganhar cerca de 400 libras, enquanto que na Grã Bretanha, apenas após muito tempo de trabalho poderia alcançar um salário de 300 libras anuais.

Já em terras paulistanas, John Miller se casou em 1870, com Carlota Alexandrina Fox, sobrinha de John Rudge que juntamente com ele viera trabalhar na São Paulo Railway. Carlota era brasileira nascida na cidade de São Paulo, em 3 de maio de 1850, filha dos ingleses Henry Fox, que trabalhava como relojoeiro, e Harriet Mathilda Rudge. O casal John e Carlota teve quatro filhos John Henry, Charles Miller, Carlota e Adolph, sendo que os dois últimos faleceram ainda crianças. Por não haver escola bilíngue na cidade naquele tempo e os pais acharem importante que eles fossem alfabetizados no idioma inglês, os meninos passaram a estudar em casa.

Preocupado com o futuro dos filhos, em 1884, John os mandou para estudarem na Inglaterra. Sendo assim, John Henry e Charles Miller, com cerca de 12 e 10 anos, respectivamente, juntamente com o primo William Fox Rule foram estudar na Banister Court School em Southampton. Naquele tempo, esta escola era dirigida por Christopher Ellaby, filho do fundador, que era um apaixonado por futebol e foi um grande incentivador para o que o menino Charles Miller adotasse este esporte, como o favorito, em detrimento aos mais populares na época, o rúgbi e o críquete. 

Em setembro de 1886, os meninos receberam a visita do pai, John, que fora para a Inglaterra fazer uma cirurgia de hérnia. Em 6 de outubro, ele veio a falecer na cidade escocesa de Glasgow. Após o funeral, o primo dos meninos, William retornou ao Brasil. Pouco tempo depois, coube a ele, juntamente com William Snape, William Speers, Peter Miller, Percy Lupton e Charles Walker fundar na cidade de São Paulo, em 13 de maio de 1888 (mesma data da assinatura da Lei Aurea, que aboliu a escravidão no país, pela Princesa Isabel), o São Paulo Athletic Club, o SPAC, primeiro clube esportivo na cidade e que tinha como objetivo ser um local onde os trabalhadores ingleses pudessem praticar os seus esportes preferidos.

Já na Inglaterra, as tardes de recreação de John Henry e Charles Miller eram ocupadas pelas partidas de futebol, onde logo passaram a se destacar. Em 1889, ao terminar seus estudos, John, com 17 anos retornou ao Brasil, deixando o irmão Charles sozinho em Southampton. Em março de 1892, John acabou falecendo por conta de disenteria, em São Paulo. Os estudos e o futebol acabaram por se tornar os grandes sustentáculos de Charles, sozinho e longe da mãe.

Nascido em São Paulo, em 24 de novembro de 1874, mais especificamente, no bairro do Brás, Charles William Miller, tinha pouco mais de 17 anos, quando em 18 de abril de 1892, atuou pela primeira vez na equipe da cidade, o St. Mary’s, time fundado em 21 de novembro de 1885, e atualmente conhecido como Southampton Football Club, na vitória de 3 a 1 frente a equipe do Exército do Quartel de Aldershot. Posteriormente, também chegou a atuar no Corinthian Football Club, o Corinthian´s Team, equipe inglesa fundada em 16 de dezembro de 1882 que serviu de inspiração para a criação do Sport Club Corinthians Paulista em 1º de setembro de 1910.

Já aos 19 anos Charles Miller era considerado um dos mais talentosos jogadores de sua região, quando resolveu que era momento de voltar ao Brasil para viver com a sua mãe, Carlota. Em outubro de 1894 ele chegou ao porto de Santos com uma mala que trazia, entre outras coisas, duas bolas de futebol, uma bomba de ar para enchê-las, um par de chuteiras e um livro de regras do association football.

Muito embora haja alguns indícios de registros mais antigos sobre a prática do futebol no Brasil, como atividade recreativa promovida por trabalhadores ingleses e junto a alguns estudantes em certos colégios jesuítas e maristas, foi a chegada de Charles Miller ao país, sobretudo com o livro de regras, que serviu de pontapé inicial para a realização das primeiras partidas de futebol no país. Por conta disso, ele é considerado o Pai do Futebol Brasileiro.

Assim como o pai houvera trabalhado, Charles arrumou um emprego na São Paulo Railway, e bem como a grande maioria dos ingleses residentes na capital paulista, passou a praticar atividades esportivas no São Paulo Athletic Club, o SPAC, que contou com seu primo, William Fox Rule, como um de seus fundadores. Por influência direta de Miller, muitos dos associados do SPAC passaram a praticar o esporte.

Não demorou muito para que o primeiro jogo de futebol, sob regras oficiais, fosse realizado no Brasil, o que aconteceu em 14 de abril de 1895 na Várzea do Carmo, na cidade de São Paulo. Naquele dia, a equipe formada por funcionários da São Paulo Railway, que contava com associados do SPAC, venceu, por 4 a 2 a equipe dos funcionários da São Paulo Gaz Company. Este jogo serviu de impulso para que vários associados do SPAC passassem a se encontrar semanalmente na Chácara Dulley, nas imediações do atual bairro do Bom Retiro, também em São Paulo, onde havia campo apropriado para que pudessem se manter em atividade. Por absoluta falta de equipe rival, o jeito foi formar duas equipes, de sócios, que costumavam se enfrentar.

Já no ano seguinte, em 1896, recém-chegado dos Estados Unidos, o professor Augusto Shaw iniciou as atividades esportivas no Mackenzie College, escola fundada em 1886, cuja sede se localizava, e ainda é, próxima ao SPAC, o que acabou por propiciar o surgimento da segunda equipe de futebol do Brasil, em 18 de agosto de 1898, a Associação Atlética Mackenzie College.

Em 1897, também chegou a São Paulo, o alemão Hans Nobiling, ex jogador de futebol do Sport Club Germania de sua cidade natal, Hamburgo. Sedento por “bater uma bolinha”, passou a frequentar a Chácara Dulley, onde assistia aos treinos dos atletas “ingleses” do SPAC. Logo, resolveu reunir amigos e enfim, matar a sua saudade da bola. No começo de 1899, Nobiling montou seu próprio time, que recebeu seu nome, Hans Nobiling, a terceira equipe de futebol do Brasil. Após desafiar o SPAC para um confronto, por conta da recusa dos ingleses, Nobiling marcou uma partida entre sua equipe e o Mackenzie.

Em 5 de março de 1899, Mackenzie College e Hans Nobiling disputaram a primeira partida entre equipes de futebol no Brasil, uma vez que o jogo de 1894 tinha contado com a participação funcionários de duas empresas. O confronto acabou empatado sem gols. Uma semana depois, em 12 de março, haveria uma segunda partida, desta vez entre o SPAC e o Mackenzie. A equipe de Charles Miller levou a melhor por 3 a 0.

A equipe do Hans Nobiling deixou de existir em 19 de agosto de 1899, quando seus integrantes resolveram criar um novo time, o Sport Club Internacional, nome sugerido pelo fato de contar com jogadores de várias nacionalidades. Contrariado por ter sido voto vencido na escolha do nome da nova equipe, em 7 de setembro de 1899, o próprio Hans Nobiling resolveu fundar o Sport Club Germania. A equipe seria campeã paulista em 1906 e 1915, e passou a se chamar Esporte Clube Pinheiros, a partir de 1942, por determinação do Governo Getúlio que emitiu um decreto proibindo o uso de nomes estrangeiros em entidades presentes no país, o que também acabou provocando a mudança de nome do São Paulo Athletic Club para Clube Atlético São Paulo. 

Quanto ao Internacional, chegou a conquistar dois títulos paulistas em 1907 e 1928. No entanto, as dificuldades financeiras foram implacáveis. Em sua ultima partida pelo campeonato paulista de 1932, em 18 de dezembro, entrou em campo frente o Juventus, sem um goleiro de ofício e com apenas 10 atletas, o resultado foi uma derrota por goleada, 6 a 2. Em 1933 se fundiu ao Antarctica Futebol Clube, dando origem ao Clube Atlético Paulista. Posteriormente, em 1937, participou de nova fusão, desta vez com Estudantes, o que resultou no Estudantes Paulista, que em 1938 foi incorporado pelo São Paulo Futebol Clube.

A Associação Atlética Mackenzie College esteve presente na primeira partida oficial da história do futebol brasileiro, em 3 de maio de 1902, válida pelo campeonato paulista, quando venceu o Germania por 2 a 1. Chegou a disputar de 13 edições do campeonato paulista, até que em 6 de outubro de 1920 se fundiu a Associação Portuguesa de Desportos, criando o Mackenzie Portuguesa, Mack-Port. A união se desfez em 27 de março de 1923 e o Mackenzie deixou de existir como time de futebol.

Já o São Paulo Athletic Club, liderado por Charles Miller, conquistou as três primeiras edições do campeonato paulista, em 1902, 1903 e 1904, levando a melhor frente ao Paulistano, que fora fundado em 29 de dezembro de 1900, nas três finais. Miller foi o artilheiro maior da competição em 1902 e 1904. A equipe de origem inglesa ainda conquistou a edição de 1911 e com o surgimento de um profissionalismo “não oficial”, o que contrariava o seu estatuto que pregava o amadorismo, resolveu abandonar a Liga Paulista de Foot-Ball em 1912, ano de sua ultima disputa nesta competição.

Após isso, o futebol no SPAC continuou sendo praticado por seus associados, com equipes formadas por atletas amadores e jogos disputados em sua maioria em caráter amistoso. Em 1923, o Sr. George Craig ofereceu uma taça que levou o nome de “Bom Accord”, de posse provisória, a ser disputada entre clubes britânicos do Rio de Janeiro e São Paulo, no caso, Rio Cricket e Associação Atlética e Clube Atlético São Paulo, o SPAC, respectivamente.

Quanto ao Rio Cricket cabe um importante registro. Clube criado, primordialmente, para a prática de críquete, em 15 de agosto de 1897, coube a ele abrigar a primeira partida de futebol sob regras, com bola e em campo oficial, no estado do Rio de Janeiro. Isto aconteceu em 22 de setembro de 1901 e contou com as participações de associados, alguns deles praticantes de outros esportes, e outros do Paysandu Cricket Club, que também era um clube de críquete, fundado em 15 de agosto de 1872, de onde o próprio Rio Cricket se originara. O grande responsável por este feito foi Oscar Cox, um carioca nascido em 20 de janeiro de 1880, que ao voltar da Suíça em 1898 onde houvera estudado, trouxe consigo duas bolas de couro e passou a introduzir o esporte entre os frequentadores do Rio Cricket. Caberia a ele ser um dos fundadores do Fluminense Football Club em 21 de julho de 1902. Já o Rio Cricket e o Paysandu, após aceitarem incluir em seus estatutos a prática do futebol, uma exigência da Liga Metropolitana de Football, participaram da primeira edição do campeão carioca de futebol em 1906. O Paysandu chegou ao conquistar o título máximo em 1912, mas abandonou as competições oficiais em 1914. O Rio Cricket resistiu até 1915, montando desde então equipes formadas por associadas que passaram a disputar partidas amistosas e os confrontos anuais frente o SPAC, o Clube Atlético São Paulo.

Para se ter ideia da importância histórica desta disputa, sua realização não foi interrompida nem durante os tempos de guerra, apenas em poucos anos na década de 1960, e acontece todo ano, intercaladamente, nas cidade de Niterói e São Paulo. O vencedor ganha o direito de ficar com a taça até a próxima disputa. Sendo assim, é correto afirmar que o SPAC continua com seu futebol ativo, assim como outros clubes brasileiros, que ainda disputam competições profissionais, e que surgiram em 1900. Dentre eles, cabe destacar dois deles que costumeiramente são indicadas como os mais antigos ainda em atividade, o Sport Club Rio Grande da cidade gaúcha homônima, fundado em 19 de julho de 1900, data escolhida pela CBF como o Dia do Futebol, e que jogou uma partida de futebol pela primeira vez em 7 de outubro daquele ano e a Associação Atlética Ponte Preta, da cidade de Campinas que nasceu em 11 de agosto de 1900 e que possui fortes indícios de ter entrado em campo pela primeira vez em setembro daquele ano.

Uma vez que o futebol brasileiro viveu durante mais de três décadas de forma amadora, até, oficialmente, o ano de 1933 e que boa parte das equipes atuais, já foram amadoras, conquistaram e contabilizam suas conquistas durante este período, é salutar considerar que os critérios a serem utilizados para definir qual a equipe mais antiga, ainda em atividade no país, seja a sua data de fundação e o fato dela continuar a participar de forma sistemática de partidas, sob regras oficiais, ainda que sejam de caráter amistoso, condições plenamente atendidas pelo Clube Atlético São Paulo, o SPAC.


 

 

A principal função do Esporte: Formar Cidadãos

Autor: José Renato - 20/08/2017   Comentários Nenhum comentário

É inegável afirmar o importante papel do esporte como elemento decisivo na inclusão social, mas principalmente em prol da formação de cidadãos. A lógica existente é óbvia, mas ainda assim merecedora de ser repetida exaustão: “Esporte é Vida, Pratique”. Quem segue por este caminho não tem tempo para olhar por outras alternativas equívocadas.

Ainda nos idos dos anos 1950 meu avô acreditava neste lema quando criou um time de futebol, o Floresta, no quintal da sua casa para que a molecada dos bairros cearenses próximos a Vila Manoel Sátiro e Mondubim pudesse praticar o futebol. O objetivo sempre esteve longe de ser formar grandes atletas, ainda que isto tenha acontecido por décadas, mas sim formar pessoas. Os valores sobre os quais os que praticam qualquer atividade física estão próximos, certamente os afastam das ‘coisas erradas’, costumava falar sua cunhada, Irelda, uma tricolor ferrenha com quem costumava protagonizar impagáveis discussões sobre quem era o melhor time da cidade, o Ceará ou o Fortaleza.

Por conta desta feliz oportunidade de viver neste meio, sempre tive o esporte no mesmo patamar de outras questões tão importantes. Conviver em família, ir ao culto religioso e praticar atividades esportivas se complementavam. Quanto ao time do meu avô, à medida que os anos avançavam, uma clara diferença veio à tona e dizia respeito ao esporte de alto desempenho. Tão logo o Floresta foi inscrito para participar de competições organizadas pela federação cearense de futebol, algumas questões importantes vieram à tona, uma delas com relação as arbitragens que costumavam atrapalhar a nossa equipe suburbana, principalmente quando enfrentava os maiores clubes do estado. Lembro de oportunidades de partidas em que três a quatro jogadores foram expulsos em jogos contra Ceará, Fortaleza e Feroviário, que suavam, para, ainda assim, apenas empatarem.

Mas havia algo que me deixava ainda mais atônito, a reação calma do meu avô diante todos estes fatos. Com uma sabedoria única, originária do semi árido de Russas, ele se resumia a afirmar: “Junior (como ele me chamava), mas o que eu quero é formar homens de bem, e nisso estamos ganhando de goleada”. E foi mesmo. Até hoje são muitas as famílias que lembram dos tempos dos ‘rachas’ no Sítio Floresta. Muitos daqueles meninos, hoje já são avôs e relembram com sorriso saudoso daqueles tempos de alegria sem fim.

Um dia desses, me encontrei com um deles, Fernando Louro, que chegou a se profissionalizar e, até mesmo, a jogar no exterior. Ele comentou que trabalhava o dia todo e à noite se juntava aos amigos para treinar. Logo perguntei: “Como conseguia competir em alto nível desta maneira?” Ele não refutou a fazer uma dura afirmação: “Zé, sempre tive na minha cabeça que precisava estudar e trabalhar. O esporte surgiu como um presente, um sonho meu. Jamais poderia colocar a minha família dentro de um sonho que era apenas meu. Por isso só abri mão de meus estudos e trabalho como office boy, quando vi que poderia viver como atleta.” Conhecendo sua família e formação, não me surpreendi, mas ainda havia algo mais por vir, qaundo ele arrematou: “Sou muito solidário com qualquer atleta que busca o alto desempenho, quando ele reclama da falta de apoio, mas cá entre nós, esporte bom é aquele que forma cidadão, campeão na vida e não aquele que se resume a ocupar de medalhas estantes empoeiradas no canto da sala e o bolso de tanta gente.”

Pois é, durma se com um barulho desses, ainda mais em um país tão carente que luta ainda pela adoção de uma verdadeira política de esportes. Ainda vivemos um modelo de gestão do qual boa parte das atividades esportivas tendem a ser geridas por entidades privadas, que são as federações, sobre as quais recaem interesses muito particulares, em parte delas, nem sempre muito republicanos. Lamentavelmente alguns atletas acreditam neste preceito e entendem que devem ter suas atividades esportivas, seus sonhos, serem bancadas pelo poder público e/ou entidades privadas. Certamente, muito mais que carência, um equívoco de abrangência moral.



 

 

O menino torcedor e seus tantos amores

Autor: José Renato - 13/08/2017   Comentários Nenhum comentário

Vivi minha infância durante a década de 1970. Confesso ser ‘uma das viúvas’ de umas das maiores revistas esportivas de toda história, a Placar, onde tive a oportunidade de atuar profissionalmente parte do ano passado, durante o curto período em que ela esteve sob gestão da Editora Caras, a pedido de um amigo único, Edgardo Martólio. 

Costumo falar que aprendi a ler com ela. Naquele tempo o futebol era quase o ar que eu respirava. Minto, era o ar mesmo. Por conta do Tabelão, seção da revista que trazia os resultados de jogos de todos os estados brasileiros, passei a acompanhar vários times e, de alguma forma, a torcer por um em cada estado. Usava diferentes critérios, alguns muito particulares, confesso.

Dois deles são os meus maiores amores, acima de todos os demais. Sim, há diferentes formas e intensidades de amar, sendo assim São Paulo e Ceará estão no topo. Entre eles, posso confessar, há uma cor a mais que define a primeira colocação. Ainda assim há motivos razoáveis por estas escolhas.

Em São Paulo e no mundo, como já afirmei, sempre fui tricolor, muito por conta do meu tio, Fernando Sátiro, ter jogado lá. Ele fez parte da equipe titular que inaugurou o estádio do Morumbi em 2 de outubro de 1960. Já no Ceará, ainda que meu tio bisavô, Alcides Santos, tenha fundado o Fortaleza, e o vizinho da minha avó, Waldemar Caracas, o Ferroviário, sempre fui Vozão, o Ceará Sporting Club, devido ao fato de meu avô, Felipe, ser alvinegro. Já nos outros estados, dá lhe particularidades!!! Vamos lá...

No Rio de Janeiro, sou Goytacaz. Motivo? Sempre achei o nome, de origem indígena, muito legal. Confesso também que sequer sabia que o alviceleste, rival do Americano, era da cidade de Campos dos Goytacazes, distante quase 300 km da capital. Em Minas Gerais, torço pelo alvirrubro Valeriodoce, da cidade de Itabira, cujo nome se originou da empresa que bancou o seu futebol durante muitos anos, a mineradora Vale do Rio Doce. Para fechar a região sudeste, no Espírito Santo, por ter um primo chamado Mateus, filho de dois queridos João Mascarenhas e Benedicta, escolhi outro alviceleste, o São Mateus.

Indo para a região sul, no Rio Grande do Sul, sempre gostei da camisa grená do Caxias, o que me fez seu torcedor. No entanto, por ter um amigo muito querido, Dr. Francisco Michielin, ferrenho seguidor do rival, Juventude, me permiti a virar casaca. No Paraná, mais uma vez o critério da ‘muito particular beleza’ do nome, sou Matsubara. O alviverde, originalmente da cidade de Cambará, foi criado pela família oriental homônima. Por fim, em Santa Catarina, me acostumei tanto a ver o Joinville campeão, durante os anos de 1970 e 1980, octacampeão naqueles tempos, que sou JEC.

Saltando para o Centro Oeste, em Goiás, sou Anapolina, a Xata, por um motivo meio absurdo. A perda do título estadual de 1981, no tapetão para, o Goiás. Mas, como sou cheio contradições, tenho simpatia também pelo alviverde. Com especial menção honrosa ao Atlético, cujos fundadores flamenguistas e são paulinos, o fez rubro negro com o distintivo similar ao meu tricolor paulista. No Mato Grosso do Sul, sou Operário, o alvinegro do goleiro Manga, que perdeu por 3 a 0 para o São Paulo nas semifinais do campeonato brasileiro de 1977, em partida que, juntamente com meu pai, não consegui entrar no estádio, completamente lotado. No outro Mato Grosso, sou o alviceleste Dom Bosco, mesmo nome do colégio perto da escola onde estudei, o Santa Inês, no bairro do Bom Retiro, na zona norte de São Paulo. Por fim no Distrito Federal, sou Guará, não sei bem porque, talvez por ser um tricolor com uma diferente combinação de cores: amarelo, preto e branco. 

No nordeste, na Bahia, ainda que tenha suportado muito pressão familiar, sobretudo dos meus primos que moravam em Salvador, todos tricolores, sempre achei o alviceleste Itabuna, equipe homônima da cidade natal de Jorge Amado, o mais legal. Em Sergipe, mais um alviceleste, desta vez apenas para ser ‘do contra’. Pelo motivo do Sergipe e do Itabaiana ganharem, naquela época, a maior parte dos títulos, sou Confiança. No Rio Grande do Norte, sou ABC, pelo fato de um dos maiores ídolos da história da equipe alvinegra potiguar, ser Sérgio Alves, que também é um dos grande nomes do futebol do meu Vozão. Em Alagoas, eram muitas siglas para escolher, CRB, CSA, CSE, ASA e tantos outros. Por isso escolhi um clube que tinha um nome. No caso, o alvirrubro Penedense, da cidade de Penedo. Acho simpáticos os times cujos nomes acabam com ‘ense’.

No Pernambuco, a minha primeira lembrança futebolística é do Santa Cruz, que teve um timaço nos anos 1970, batendo, como visitantes, Flamengo e Palmeiras. Foi lá também onde se destacou um dos meus ídolos, o zagueiro Lula Pereira. Mas por ter grandes amigos alvirrubros, dentre eles, Mestre Roberto Vieira, Carlos Celso, Lucídio e Lenivaldo, sou Timbu, o Náutico. No Piauí, sou tricolor, o Ríver, do Pelé piauiense, Sima e que durante anos teve um distintivo similar ao do meu tricolor paulista. Nos últimos dois estados nordestinos, escolhi torcer para dois times, em cada, e rivais, veja se é possível. No Maranhão, sou Sampaio Corrêa, a quem chamava erroneamente, quando criança, de “São Paulo Corrêa”. Mas também sou Moto, porque?  Simples, foi fundado no dia do meu aniversário, 13 de setembro. Fica a dica. Este também foi o critério para escolher o Treze na Paraíba. Como deixar de torcer para uma equipe que se chama o dia do seu aniversário? Mas lá, também sou Botafogo da Paraíba, alvinegro como o homônimo do Rio de Janeiro e que ao ganhar uma estrela vermelha, se tornou tricolor, o meu ‘fraco’.

Chegando no Norte, primeiramente em Manaus, onde morei por alguns anos. Escolhi o Fast no Amazonas, por ser o único tricolor com 4 cores. Mas tenho simpatia pelo Rio Negro, nome de um dos mais belos rios do mundo. No entanto, por conta de um amigo, Amarildo, sou alviverde, Iranduba, ainda que a camisa mais bonita seja do Sul América, tricolor: vermelha, azul e branca. No Pará, sempre tive simpatia pelo Remo, azulino com cores fortes, mas por ter muitos amigos torcedores do Papão, o Paysandu, dei uma sútil virada de casaca.

Vinte e dois estados, mais o Distrito Federal. Naquele tempo, eram estes os meus limites. A revista Placar não costumava cobrir o futebol do Acre, Amapá, Rondônia e Roraima. O estado de Tocantins sequer existia. Eis que aqui completo minha lista. No Acre, do meu amigo Manoel Façanha, sou Rio Branco, o estrelão cujo cor vermelha representa o sangue dos mortos pela luta em prol da anexação da área ao país. No Amapá, sou o São Paulo local, por motivos óbvios. Em Rondônia, sou alviceleste, Ji-Paraná, pela etimologia do nome indígena, yî (machado) e paranã (grande rio), alusão ao grande número de pedras que se parecem com machados indígenas. Já em Roraima, sou alvirrubro, Náutico, homônimo ao meu timbu pernambucano. Por fim, Tocantins. Afinal alguém pode torcer por algum time lá? Sim, eu sou Alvorada, nome do bairro manauara próximo de onde morei.

Trinta e tantos times, será que há algo mais apaixonante que futebol?



 

 

Iranduba, o Hulk da Amazônia, o maior alento do nosso futebol

Autor: José Renato - 06/08/2017   Comentários Nenhum comentário

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Violência, condições precárias, comida e lanche de má qualidade e/ou com alto preço, transporte falho, problemas para estacionar o veículo. Estes são apenas alguns dos motivos que contribuíram para que tantos torcedores frequentadores assíduos de estádios passsassem a ser adeptos do sofá.

deixassem de serem.

Quem frequenta jogos de futebol bem sabe do que estou falando.

Assícu estádiosSão estes apenas alguns dos motivos de deixar de ter sido um frequentador assíduo dos estádios de futebol. Quem 

Ausente dos estádios, nã

Durante muitos anos de minha vida fui um assíduo frequentador de estádio.

Envolvido no lançamento do livro sobre heráldica futebolística, os distintivos dos clubes, que escrevera com o saudoso amigo Luiz Fernando Bindi, eram meados de 2011 quando me encontrei com aquele rapaz, de nome Amarildo, em um pequeno shopping na capital amazonense. 

Carregava consigo uma sacola meio amarrotada, com uma bela camisa esmeraldina, e tão logo sentou se à mesa já antecipou “desculpe-me pelo atraso, mas estou no meio do horário de almoço do meu trabalho e não podia deixar de ve-lo”. Lisonjeado por certo reconhecimento do qual não sou merecedor, sua fala era empolgada e tinha motivos para tal, acabara de fundar o Esporte Clube Iranduba da Amazônia.

Cidade localizada ao lado da capital baré, ainda que do outro lado do Rio Negro, Iranduba, cujo nome em tupi-guarani significa “lugar com muitas abelhas”, talvez tenha sido a grande beneficiada pela construção da ponte estaiada, de quase 4 quilômetros de extensão, que a ligou à Manaus. Em meio de muitas polêmicas, sobretudo por conta do alto custo, a ponte Rio Negro mudou a paissagem da região.

Com voz grave e forte, Amarildo, que atuara anos antes em um clube local, o São Raimundo, tricampeão da região norte nos anos 1990, não conseguia se conter ao falar de seus planos para a equipe alviverde que dentro de alguns dias iria estrear no campeonato amazonense da segunda divisão: “Vamos subir e ano que vem estaremos no Barezão (como é chamada a competição local)”, dizia ele. Entre tantos assuntos, logo veio à tona, aquele que fazia brilhar, ainda mais, seus olhos, o time feminino que também faria sua estreia no campeonato estadual naquele ano.

Diante de tantos sonhos, não pude me furtar a, dentro da minha reduzida rede de contatos, tentar algum tipo de divulgação em terras bandeirantes. Indiquei o nome de um jornalista que atuava na época em uma rádio na capital paulista. Ao contata-lo, Amarildo logo levou uma ‘flechada’: “...a  simples criação de um clube não é uma pauta tão interessante, lamento”. Antes que o jornalista concluísse, antecipou “... mas pretendo plantar uma muda, em meio da floresta amazônica, alusivo a cada espectador dos jogos da equipe...”. Pois é, a flechada fora devolvida e, pela primeira vez o nome do Esporte Clube Iranduba era falado em uma rádio de expressão nacional. Em meio de uma competição cujo público não passara de dezenas de curiosos, não foi dificil cumprir a promessa das mudas. 

Em campo, as coisas pareciam mais faceis, ainda que não fossem. Apesar disso e diante tantas dificuldades, o time masculino conquistou o acesso para a primeira divisão do estadual e o feminino levantou a taça, a primeira do futebol profissional do clube. No ano seguinte, 2012, os feitos foram ainda maiores, o vice-campeonato do segundo turno do estadual no masculino e o bicampeonato feminino. E aí não parou mais. Ainda que distante foi impressionante acompanhar o progresso do clube amazonense. Tantos abnegados, apaixonados, profissionais e atletas que estão transformando, tomara que para sempre, a história do futebol feminino e amazonense. Certamente o esporte local jamais será o mesmo a partir dos feitos do Iranduba. 

Quase 6 anos depois, em nosso mais recente encontro, também em um shopping, desta vez na capital paulista, dividi a mesa com o mesmo Amarildo, presidente, agora, de um clube hexacampeão estadual, semifinalista do campeonato brasileiro de futebol feminino, que eliminara o, até então, atual campeão da competição, o Flamengo, e que levara mais de 25 mil pessoas para uma partida de futebol feminino, três vezes o maior público do campeonato estadual masculino, e novo recorde brasileiro na categoria, na Arena da Amazônia, um dos palcos da Copa do Mundo de 2014, e já figurinha carimbada da grande mídia nacional sob a alcunha de ‘Hulk da Amazônia’. No futsal, a equipe feminina já fora bicampeã amazonense sub-20 e campeã adulta. O mundo realmente nos presenteia com oportunidades únicas para sermos testemunhas de fatos épicos.

Parabéns Iranduba e todos seus atletas, profissionais e torcedores que têm contribuído com esta história de sucesso.




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