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Blog Memória Futebol


O maravilhoso Cisco Kid, Mário Sérgio

Autor: José Renato - 30/11/2016   Comentários Nenhum comentário

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Mário Sérgio Pontes de Paiva nasceu em 7 de setembro de 1950 na cidade do Rio de Janeiro. De família muito humilde foi criado no bairro das Laranjeiras, próximo ao Fluminense, clube do qual seu pai era sócio, e onde jogou futebol de salão por cerca de sete anos. Eram tempos dificeis e embora tenha se destacado, a necessidade de colocar dinheiro em casa o fez largar as quadras em troca do trabalho em uma empresa de processamento de dados.

O amor pelo futebol, no entanto, era maior, e em 1969, foi levado para fazer testes no Flamengo, que logo o contratou. Sua grande habilidade de driblar chegou a ser motivo de preocupação para a comissão técnica rubro negra, sobretudo do técnico Yustrich, que achava que ele segurava muito a bola, em outras palavras, ‘um fominha’. Dono de uma personalidade forte, Mário Sérgio também não perdia a oportunidade de mostrar, fora de campo, como ele era. Aproveitava, como poucos, a vida, sempre com seus cabelos longos e roupas muito coloridas. Isso não passou em vão para Yustrich. Autoritário, o técnico não demorou a bater de frente com ele, e não perdia a chance de chamá-lo de boneca. Mário Sérgio também não deixava por menos e costumava aprontar das suas com o técnico. Depois de muitas brigas, no entanto, Yustrich levou a melhor, ao convencer a diretoria da equipe carioca para que cedesse Mário Sérgio ao Vitória da Bahia.

Em um tempo quando o futebol brasileiro era, mais que nunca, concentrado no eixo Rio-São Paulo, Mário Sérgio surpreendeu a todos ganhando destaque nacional ao defender as cores do rubro negro baiano. Campeão estadual em 1972, ganhou a Bola de Prata, premiação promovida pela Revista Placar, como melhor de sua posição nos campeonatos brasileiros de 1973 e 1974. Suas grandes atuações levaram Francisco Horta, presidente do Fluminense, a trazê-lo de volta ao Rio, mais precisamente para atuar na “ A Máquina”, como ficou conhecida uma das maiores equipes da história do clube. De volta onde tudo começou para ele, ganhou um novo apelido, Vesgo, por conta do hábito de “olhar para um lado e tocar a bola para o outro”. Ainda que tenha sido campeão carioca em 1975, em um time cheio de craques, não costumava aceitar ser sacado do clube, o que sempre foi um grande problema. Acabou sendo cedido ao Botafogo.

Entre os anos de 1976 e 1979 fez parte do time do camburão, apelido dado pelo jornalista botafoguense Roberto Porto, por conta da presença de jogadores polêmicos, todos com a ‘chave da cadeia’, como o próprio Mário Sérgio, Dé, Paulo César Lima, Renê, Perivaldo e tantos outros. No meio de tantos amigos, sobrou pouco tempo para jogar bola e não brilhou de forma tão intensa com a camisa do alvinegro da Estrela Solitária. Foi para o Rosário Central da Argentina, onde foi sozinho, sem a esposa, que acabara de começar seus estudos na faculdade, o que fez sua estadia em terras portenhas ser muito breve, apesar de cheia de atos de indisciplina. Ficou por muito pouco tempo, apenas 4 meses, e logo voltou ao Brasil, a pedido de Paulo Roberto Falcão, para atuar no Internacional. Aliás, para o Rei de Roma, Mário Sérgio foi o jogador mais técnico com quem jogou.

No Colorado, comandado pelo técnico Enio Andrade, Mário Sérgio renasceu. Foi um dos grandes responsáveis pela conquista do único título brasileiro invicto, em 1979. Atacante inteligente, com habilidade única para atuar no meio campo e colocar o bola onde queria, voltou a ganhar a Bola de Prata em 1980 e 1981, o que proporcionou sua contratação pelo São Paulo, outra equipe que tinha como apelido, “A Máquina”. Chegou no Morumbi e conseguiu o que seria improvável, ganhar a posição de um dos maiores atacantes do clube, Zé Sérgio, até então titular da seleção brasileira do técnico Telê Santana.

No tricolor paulista, foi um do grandes nomes da equipe campeã paulista daquele ano. Cracaço de bola em campo, temperamental fora dele. Na final do segundo turno do campeonato paulista, na partida frente ao São José, no Vale do Paraíba, após a torcida local cercar o onibus da equipe, ele abriu a janela e sacou alguns tiros para cima. Dispersão desfeita, a delegação tricolor pode sair das cercanias do estádio Martins Pereira. O episódio fez com que o jornalista Silvio Luiz o desse o apelido de ‘Cisco Kid’. Seu bom futebol o levou a vestir a camisa canarinha. No entanto, sua fama de indisciplinado, fez com que Telê não o levasse para a Copa do Mundo de 1982. No Morumbi também teve atritos com José Poy e foi cedido a Ponte Preta.

Após um curto período na equipe campineira, a pedido do técnico Valdir Espinosa foi contratado pelo Grêmio para atuar na final do Mundial Interclubes de 1983. Foi o cérebro daquela equipe que conquistou o título mundial diante a equipe alemã do Hamburgo, com uma épica vitória por 2 a 1, com gols de Renato Gaúcho. Logo no ano seguinte estaria de volta ao Beira Rio para defender o Internacional. Desta vez ficou por pouco tempo e ainda naquele ano foi contratado pelo Palmeiras, onde viveu uma grande fase. Jogou demais com a camisa alviverde e foi o grande comandante da equipe que liderou boa parte do campeonato paulista daquele ano. Voltou, até mesmo, a ser, novamente, convocado para a seleção brasileira. Tudo ia muito bem, até que acabou sendo pego no exame anti-doping no clássico diante o São Paulo em 9 de setembro de 1984. Suspenso, o fato também afetou a performance do Palmeiras, que perdeu fôlego na competição. Deixou o Parque Antarctica em 1985.

Passou pelo Botafogo de Ribeirão Preto e pela equipe suíça do Bellinzona, até chegar ao tricolor da Boa Terra, o Bahia, em 1987. Se despediu do futebol no meio de muita polêmica, algo tão natural para ele. No dia 4 de outubro, no intervalo da partida diante o Goiás, válida pelo campeonato brasileiro, entrou no vestiário, trocou de roupa e disse que encerraria ali sua carreira. Anos depois, já com a camisa da seleção brasileira de Master, mostrou que poderia ter desfilado seu talento pelos gramados ainda por muito tempo.

Mário Sérgio foi um jogador brilhante, um dos maiores do seu tempo. Espetacular como atacante e meio campista. Dono de seus pensamentos e de suas palavras, o que, certamente impediu que muitos técnicos soubessem utilizar o seu melhor.   


 

 

O Tiziu, Paulo Isidoro

22/11/2016   Comentários Nenhum comentário

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Paulo Isidoro de Jesus nasceu em 3 de julho de 1953 na cidade mineira de Matosinhos. O menino de origem humilde começou no futebol com apenas 9 anos na equipe infantil do Cruzeirinho. Ao se mudar com a família para Belo Horizonte passou a atuar no Ideal, clube amador do Bairro das Graças. Atuando no meio campo, acabou chamando a atenção do massagista do Atlético Mineiro, Irineu, que o convidou para fazer um teste no clube que tinha como técnico da equipe principal Barbatana.

Dono de um preparo físico invejável, com muita disciplina tática e com perfeição no passe, Paulo Isidoro se destacou, por ser um ótimo “garçom”, pois servia bem aos atacantes, e acabou ganhando uma vaga nos juvenis do Galo. Foi neste tempo que ganhou o apelido de “tiziu”, nome de um pássaro preto e arredio.

Em 1974, com 21 anos, sem chances na equipe titular, passou a ser considerado como “moeda de troca” para ser utilizada em outras contratações no clube. Naquele tempo, o Atlético mantinha uma parceria com o Nacional de Manaus, para onde mandava atletas que não costumavam ser utilizados na equipe principal em troca de colocá-los para atuar. Desta forma, poderia chamar atenção de prováveis interessados em contratá-los. Sua estreia no clube amazonense aconteceu em 29 de setembro de 1974 na goleada por 3 a 0 frente ao Fast em partida válida pelo campeonato amazonense. Embora tenha começado na reserva, entrou no lugar de Bibi, filho do campeão mundial Didi, e marcou um dos gols da vitória nacionalina. Campeão amazonense daquele ano, suas atuações, ainda que boas, não chegaram a empolgar e tão logo o campeonato acabou, ele voltou ao Atlético.

Ainda reserva precisou esperar mais algum tempo para ter uma chance na equipe principal. Ela veio com a convocação do titular, Marcelo Oliveira, para a seleção brasileira que disputaria os Jogos Pan-americanos da Cidade do México, por decisão do técnico Telê Santana que identificou qualidades únicas naquele incansável meio campista que segundo ele, sabia, como poucos, sair com a bola dominada de forma rápida. Seu estilo de jogo se adaptou com perfeição ao do centroavante Reinaldo e não saiu mais do time. O bicampeonato mineiro em 1975 e 1976 acabou por lhe render a primeira convocação para a seleção brasileira pelas mãos do técnico Osvaldo Brandão, para disputar partida amistosa frente um combinado formado por atletas do Flamengo e Fluminense, em 31 de janeiro de 1977 e que acabou empatado por 1 a 1.

As expectativas eram muito boas para aquele ano, uma vez que passou a ser figura constante na seleção que se preparava para a Copa do Mundo de 1978 e, além disso, era um dos destaques do Atlético Mineiro que fazia uma campanha impecável no campeonato brasileiro daquele ano. Tudo ia muito bem, até que acabou barrado, pelo técnico Barbatana, que voltara ao Galo, da equipe titular justamente nas partidas decisivas da competição nacional, realizadas já no começo de 1978. Para Barbatana, Marcelo era o titular e ele, o reserva. A perda do titulo para o São Paulo foi surpreendente assim como o esquecimento do técnico da seleção brasileira, Claudio Coutinho, que não o levou para a Copa da Argentina.

Novamente campeão mineiro em 1978, foi negociado com o Grêmio em 1979, em uma troca pelo ponta-esquerda Eder. Atuando no tricolor gaúcho, Paulo Isidoro se tornou em um elemento indispensável para a equipe, uma referência que acabou por provocar seu retorno a seleção brasileira, comandada por um velho conhecido Telê Santana.  Bicampeonato gaúcho de 1979 e 1980, Paulo Isidoro teve participação decisiva na conquista do primeiro titulo nacional dos gremistas, o campeonato brasileiro de 1981, ao marcar os dois gols da vitória de virada, por 2 a 1, frente ao São Paulo na primeira partidas das finais, realizada no estádio Olímpico em 30 de abril de 1981. Além disso, ganhou a Bola de Ouro, prêmio promovido pela revista Placar, como o melhor jogador da competição.

Presença obrigatória em todas as convocações da seleção de Telê passou a ser o décimo segundo jogador, aquele que entrava em todas as partidas. Com a expulsão de Toninho Cerezo, na partida, válida pelas eliminatórias, frente à Bolívia, em 22 de fevereiro de 1981, e sua suspensão para a partida de estreia na Copa do Mundo de 1982, contra a União Soviética, tudo indicava que ele seria o titular. Apesar de contar com sua confiança, Telê preferiu improvisar Dirceu numa posição em que jamais o escalara antes. Ao final do primeiro tempo, Paulo Isidoro entrou no lugar de Dirceu, que a partir daquele momento não voltou mais a equipe, e foi um dos responsaveis pela vitória brasileira de virada por 2 a 1. O meio campista continuou como reserva na competição, mas sempre entrando no decorrer das partidas, o que só não aconteceu na vitória frente a Argentina por 3 a 1. Foi um dos poucos atletas poupados de críticas por conta da prematura e trágica eliminação frente a Itália. Também foi um dos poucos a continuar a ser convocado imediatamente depois dela, já sob o comando de Carlos Alberto Parreira em 1983. Ao todo atuou 41 jogos com a camisa da seleção brasileira, sofrendo apenas duas derrotas.

Nesta época foi contratado pelo Santos, onde continuou a surpreender a todos sobretudo por demonstrar uma incrível vitalidade para um atleta que já chegara aos 30 anos, algo considerado muito raro naquela época. Sempre atuando de forma cerebral e praticamente sem errar passe, foi o escolhido o melhor meio-campista do campeonato brasileiro de 1983, e peça importante para o vice-campeonato brasileiro conquistado pela equipe alvinegra, bem como pelo titulo paulista de 1984, que deu fim a um incomodo tabu de 6 anos, em uma momento inesquecível para a sua carreira, por conta da morte do pai, na véspera da partida vencida por 1 a 0 frente o Corinthians em 2 de dezembro de 1984. É de arrepiar a cena da comemoração do gol de Serginho, com Paulo Isidoro desabando em campo com as mãos erguidas para o céu.

Ainda voltaria ao Galo no ano seguinte, para ser bicampeão mineiro em 1985 e 1986. Ao final da temporada de 1987, se despediria de vez do clube onde tudo começou, para atuar no Guarani de Campinas, onde continuaria com os holofotes virados em sua direção. Aos 35 anos de idade foi um dos destaques da equipe bugrina que chegou ao vice-campeonato paulista de 1988. Quase que interminável ainda atuaria no XV de Jaú, Cruzeiro e Internacional de Limeira, onde encerrou a carreira já com 39 anos.

Paulo Isidoro foi um profissional exemplar cuja longevidade de uma carreira vitoriosa serve para comprovar o atleta único que foi, um trabalhador incansável em campo e um dos grandes nomes da historia do futebol brasileiro. 




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