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Blog Memória Futebol


Hungria, o Time de Ouro

Autor: Adriano Fernandes - 13/11/2012 Categoria: Adriano Fernandes   Comentários Nenhum comentário

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Por Pedro Sciarotta e Kim Paiva

É muito comum no futebol eleger as grandes equipes da história, sejam elas seleções nacionais ou clubes. Sem dúvida, é um exercício lúdico e saudável recordar os times que reuniram uma série de craques de forma coesa e, por conta disso, colecionaram títulos. O Brasil de 58 e 70, o Santos de Pelé, o Real Madrid de Di Stéfano 5 vezes campeão europeu, o Milan dos holandeses Gullit, Rijkaard e Van Basten, campeão italiano e europeu. Exemplos de timaços vencedores não faltam.

O curioso é que também sobram lembranças de grandes esquadrões que, por razões diversas, acabaram sucumbindo diante de adversários muito inferiores. O futebol permite que times limitados achem uma maneira de se superar e passar por cima da diferença técnica. A Holanda de 1974, que revolucionou a visão tática da época com o “futebol total” – ou “Carrossel Holandês” – é o caso mais clássico de uma grande equipe que fracassou em uma decisão, contra a Alemanha Ocidental. Nem por isso o mundo de futebol deixa de reverenciar Johan Cruyff e companhia.

A Holanda de 74 encantou o mundo, mas perdeu a final para a Alemanha

Talvez o grande pecado da Laranja Mecânica seja ofuscar uma das seleções mais arrasadoras que o futebol já viu. Curiosamente, esse time caiu diante da mesma Alemanha Ocidental 20 anos antes, em 1954. Trata-se da Hungria, campeã olímpica de 52, invicta por mais de 4 anos (31 jogos), até a fatídica decisão da Copa do Mundo de 1954. Os “Mágicos Magiares” (alcunha atribuída à Hungria da década de 50, que também era chamada de “O Time de Ouro”) haviam derrotado a sua adversária da final por incríveis 8 a 3 na fase de grupos, por isso ninguém poderia imaginar uma derrota húngara. Não por acaso a final da Copa de 54 ficou conhecida como o Milagre de Berna.

Os Mágicos Magiares

A tática

Há 50 anos, o futebol era muito diferente taticamente do que é hoje em dia. Não havia qualquer rigor defensivo, por isso o número de gols era elevado. Para se ter uma idéia do abismo que se tem entre o futebol atual e o dos anos 50, o esquema básico daquela época se expressava no 2-3-5, quase o inverso do que se vê hoje em dia. Evidentemente alguns atacantes recompunham o meio-campo, algo similar ao que acontece no 4-2-3-1, atual esquema da moda, em que os pontas viram marcadores do lateral adversário quando não têm a bola.

No caso do 2-3-5, os “laterais” jogam na linha de 3 do meio-campo, era ali que os pontas deveriam colaborar na marcação. O time era comandado por Guzstáv Sebes, responsável pelo “futebol socialista”, plano tático que foi o embrião do futebol total da Holanda de 74. Em comum, os dois tinham a volúpia ofensiva baseada em uma marcação realizada de forma implacável. Todos deviam desempenhar papéis ofensivos e defensivos e jogar de forma compacta.

Muitas vezes o que era 2-3-5 virava rapidamente um 4-2-4, como vemos nas imagens (a  segunda “prancheta” também mostra a disposição tática da Inglaterra no jogo que as duas seleções fizeram em 1953, conhecido como “O Jogo do Século”, pois reunia a poderosa Hungria e os inventores do futebol). O atacante mais centralizado (Hidegkuti) vira um meia ofensivo, enquanto dois dos meio-campistas (Zakariás e Lorant) viram zagueiros, enquanto os zagueiros (Lantos e Buzánszky) se transformam em laterais. Nessa variação tática se destacam Bozsik e Hidegkuti, como falarei a seguir.

Os artistas

Grosics: Como todo grande time, a Hungria já demonstrava seu valor a partir do goleiro, Gyula Grosics, conhecido como Pantera Negra, devido a seus reflexos. Grosics tinha como grande diferencial atuar como um líbero em alguns momentos do jogo, com o objetivo de sufocar ainda mais o adversário. Ele foi um dos primeiros goleiros a demonstrar desenvoltura para desempenhar esse papel, inspirando muito colegas de posição.

Mihály Lantos, Jenõ Buzánszky, Gyula Lorant e József Zakariás: Possivelmente os jogadores menos importantes do Time de Ouro, embora essa seja uma definição cruel. O fato é que os quatro desempenhavam papel defensivo na equipe, que dificilmente sofria pressão do adversário, já que estava constantemente massacrando a meta adversária. O grande mérito deles é ter uma boa leitura tática, fazendo com que a transição do 2-3-5 para o 4-2-4 e vice-versa se desse com naturalidade.

József Bozsik: Bozsik era o cérebro da seleção húngara, todas as ações deveriam passar por ele. Tinha total autonomia para criar e também para orientar seus companheiros. Era mais ou menos o que é Xavi para o Barcelona e para a Espanha. Um meio-campista completo.

Zoltán Czibor, Lászlo Budai e Nándor Hidegkuti: Os dois primeiros eram os pontas da equipe húngara e eram importantes coadjuvantes dos astros Kocsis e Puskás. Hidegkuti fazia um papel interessante, recuando da posição de centroavante para o meio, abrindo espaços para quem vinha de trás. Ele deu origem ao termo “playmaker”, criador de jogadas, ou “Camisa 10”, como se costuma definir no Brasil, justamente por ser um garçom para os fantásticos atacantes Puskás e Kocsis.

Ferenc Puskás: De cada 100 listas dos 10 maiores jogadores de todos os tempos, 99 incluem o nome de Puskás. É desnecessário destacar as imensas qualidades técnicas deste atacante canhoto. Para entender porque esse húngaro ocupa posição tão destacada entre as lendas do futebol basta ver alguns números. Puskás marcou 84 gols em 85 jogos com a camisa da seleção. Pelos clubes que passou, o atacante marcou 515 gols em 533 jogos. Isso tudo graças a um destacado chute de esquerda, aliado à facilidade para o drible curto. Esse gênio do futebol merecia um post só para ele, mas como o foco é a equipe húngara, vamos em frente.

Sándor Kocsis: Artilheiro da Copa de 54 com 11 gols, Kocsis é um dos maiores camisas 9 da história do futebol. Dono de uma cabeçada muito especial, o centroavante húngaro batia bem com os dois pés e possuía boa habilidade. Certamente é o grande destaque ofensivo do Time de Ouro depois de Puskás.

Política e futebol

Misturar política e esporte é algo recorrente no mundo. Sempre que algum grupo se destaca no futebol ou em outra modalidade, aparecem diversos urubus querendo tirar proveito. No Brasil um exemplo clássico é a seleção de 1970, que encantou o mundo e serviu ao General Médici para que este ganhasse credibilidade junto ao povo. Com a Hungria de Puskás e companhia foi um pouco diferente. Na verdade a seleção húngara em si não era diretamente ligada à ditadura socialista instaurada no país. Porém, o Honved, clube em que a maioria dos titulares da seleção jogava, era o time do Exército Vermelho. Essa foi uma mancha na história do time que foi reconhecidamente o melhor do mundo entre os anos de 1950 e 1956

A curiosa história que envolve o Milagre de Berna

Estava tudo desenhado para mais uma vitória fácil da Hungria, que coroaria definitivamente os magiares como reis do futebol. Eis que surgiu um vilão implacável: a chuva. A final da Copa do Mundo de 1954 foi disputada sob um verdadeiro dilúvio. A leve equipe húngara se incomodava muito mais com aquela condição climática, pois teria maior dificuldade para trocar passes rápidos. Em 10 minutos, porém, já estava 2 a 0 para os magiares. Logo em seguida os alemães empataram de forma surpreendente e o jogo seguiu igual até o intervalo.

Foi aí que entrou a tal lenda que relaciona a posterior vitória alemã à marca Adidas. Dizem que no vestiário, enquanto o time alemão descansava para o 2º tempo, Adi Dassler, fundador da marca Adidas, foi até cada jogador trocar as travas de suas chuteiras para que escorregassem menos, já que a chuva apertara ao final da 1ª etapa. Se isso é verdade não se sabe, o fato é que não foi por isso que a Alemanha venceu aquela Copa, já que havia conseguido segurar o empate mesmo antes da troca das travas.

No 2º tempo o panorama do jogo mudou pouco e aos 39 minutos a Alemanha virou o jogo, decretando uma das maiores zebras da história do futebol. E uma daquelas zebras que os amantes deste esporte lamentam profundamente, pois puniu quem praticava o futebol-arte… ou celebram, pois “há coisas que só acontecem no futebol” e “o futebol é uma caixinha de surpresas”. Para o Time de Ouro, melhor seria se o futebol fosse uma caixinha de mesmices.

Para quem não teve a chance de acompanhar de perto essa máquina de jogar futebol resta apenas imaginar o que aconteceria se Kocsis fosse confrontado por um zagueiro como Rio Ferdinand ou se Bozsik se encontrasse com Xavi em um duelo pelo meio-campo.

O fato é que a seleção húngara teve um valor inestimável para o futebol e influenciou diretamente o Brasil de 1958 e, posteriormente, a Holanda de 1974. Cabe aos amantes do futebol reverenciar esses astros da velha guarda que, de diversas formas, alteraram o destino do esporte mais popular do mundo.

Alguns dos muitos feitos notáveis da Seleção Húngara:

Maior goleada da história das Copas: Hungria 9 x 0 Coréia do Sul;

Maior número de gols marcados em uma Copa do Mundo: 27, média de 5,4 gols por jogo;

Técnico com maior aproveitamento no comando de uma seleção: Gusztáv Sebes – 82,6% (49 vitórias, 11 empates, 6 derrotas);

Maior série invicta entre seleções: 31 jogos (4 de junho de 1950 – 3 de julho de 1954).

Fonte da Imagem: Imortais do Futebol

Fonte: Blog E O Mundo É Uma Bola em 8/10/2010


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