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Blog Memória Futebol


O bom alagoano Peu

Autor: José Renato - 18/01/2016   Comentários Nenhum comentário

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Júlio dos Santos Ângelo nasceu em Maceió, no dia 4 de abril de 1960. Um dos oito filhos do casal formado por “Seo”Antônio, roupeiro da equipe alagoana do Centro Sportivo Alagoano, o CSA, e “Dona” Maria, lavadeira do clube, entrou para a história do futebol com o apelido de Peu. Sua infância foi vivida praticamente no campo do Mutange, onde o Azulão treinava e mandava algumas de suas partidas. Durante os jogos costumava ajudar a mãe vendendo raspadinha e atuando como gandula. Ainda com 15 anos passou a atuar nas equipes de base da CSA, onde logo se destacou por ser um meio campista habilidoso, veloz e que avançava ao ataque com grande facilidade. Chegou à equipe principal com apenas 17 anos e logo passou a ser chamado de Pelezinho. Graças ao jornalista Marcio Canuto, sabedor sobre o quanto o peso deste nome poderia atrapalhar sua carreira, o apelido logo foi deixado de lado. A excelente campanha da equipe em 1980, quando foi vice-campeã da Taça de Prata, atual Série B do campeonato brasileiro, e campeã alagoana, galgou Peu à condição de maior ídolo da torcida azulina. Dos rivais chegou a ganhar o apelido de “Demônio Preto”. Toda esta badalação acabou chamando a atenção do então técnico, e ex-jogador, Orlando Peçanha, que o indicou ao Flamengo. O interesse rubro negro acabou provocando a realização de uma pesquisa de opinião pública promovida pelo jornal local Tribuna de Alagoas, para saber se o craque alagoano deveria seguir para o Rio de Janeiro. Para a felicidade de sua mãe, que chegara a pedir ao presidente do CSA, João Lyra, que “pelo Amor de Deus” vendesse seu filho, seu destino foi a Gávea. Atuar no Flamengo era a concretização do sonho de seu falecido pai, que fora fã de Dida, um dos grandes nomes da história da equipe carioca e que também iniciara a carreira no CSA. Peu chegou ao “Mengo” justamente no maior ano da história da equipe da Gávea, 1981. Coube a ele substituir o maior nome rubro negro de todos os tempos, Zico, que defendia a seleção brasileira durante as eliminatórias para a Copa do Mundo de 1982, durante o começo do campeonato brasileiro daquele ano. Estreou em 28 de janeiro na vitória por 2 a 0 frente ao Sampaio Corrêa no Maracanã. Com o retorno do Galinho, passou a ser utilizado como opção na linha de ataque. Embora não tenha se firmado como titular, o ano foi muito promissor para o atacante que conquistou a Taça Guanabara, o Campeonato Carioca, a Taça Libertadores e o Mundial Interclubes. Além de sua habilidade, outra característica marcante em Peu era a sua ingenuidade, o que, somado com sua gagueira, o fazia ser a vitima preferida das brincadeiras de seus colegas de time. Durante a viagem de avião entre Los Angeles e Tóquio, onde o Flamengo decidiria a final do Mundial contra o Liverpool, Zico e Junior se dirigiram a ele e apresentaram um documento onde estavam listados todos os nomes dos atletas que possuíam bigode. Alertaram Peu, que em sua foto no passaporte ele estava sem bigode, e que pelo fato do seu nome não estar no documento, ele teria problemas para entrar no Japão. O atacante se desesperou pela possibilidade de ser mandado de volta ao Brasil. Minutos depois, coube ao comandante do voo continuar com a brincadeira o chamando pelo alto falante: “Jogador Peu, por favor, se dirija a cabine de comando” Chegando lá, o comandante o alertou do “problema” e lhe entregou um barbeador e um creme, para que retirasse o bigode. Agradecido, Peu se dirigiu ao toilette. Ao sair, se deparou com quase todos os seus amigos rubro-negros que não aguentavam de tanto rir. O ano de 1982 começou com mais uma conquista, a do campeonato brasileiro, com participação decisiva de Peu que após longo período sem atuar, ao substituir Nunes, marcou um dos gols da vitória rubro-negra por 2 a 1 frente ao Guarani, em partida, realizada no Maracanã, válida pelas semifinais da competição, em 11 de abril. Naquele mesmo jogo, no entanto, sofreu uma distensão muscular que o afastaria dos campos por um longo tempo. Seu retorno foi demorado e as oportunidades no time titular, no entanto, se tornaram cada vez mais raras. No começo de 1983, acabou envolvido em uma troca, por empréstimo pelo meio campista Lino, do Atlético Paranaense para a disputa do campeonato brasileiro daquele ano. Peu teve boas atuações na equipe do Furacão, comandada pelo Casal 20, Assis e Washington, que chegou as semifinais do campeonato brasileiro, sendo eliminada justamente pelo Flamengo. De volta a Gávea, com apenas 23 anos e muito mais experiente, a saída de Zico para a Udinese, em junho de 1983, talvez pudesse significar novas chances para Peu, no entanto, a instabilidade da equipe carioca acabou contribuindo para a sua saída, após a goleada de 6 a 2 sofrida frente ao Bangu em partida válida pelo campeonato carioca em 7 de setembro. Foram 59 partidas com a camisa rubro-negra e 11 gols marcados. Poucos dias depois, em 25 de setembro, já estrearia no Santa Cruz em um clássico frente ao Náutico, vencido pela equipe tricolor por 1 a 0. Peu conquistaria o titulo pernambucano daquele ano, na épica vitória por 6 a 5, em disputa por pênaltis, frente a equipe alvirrubra. Ficou pouco tempo no Arruda, e logo no começo de 1984 foi contratado pelo Nacional de Manaus para participar a Taça de Ouro, o campeonato brasileiro. A aventura no Amazonas foi ainda mais curta, e naquele ano, chegaria a Ribeirão Preto, mais precisamente no Botafogo. Acabou se firmando no clube e durante 4 temporadas foi titular da equipe na disputa dos campeonatos paulistas, atuando com grandes jogadores, tais como Raí, Marco Antonio Boiadeiro e Mario Sergio. Durante este período chegou a ir jogar no futebol mexicano, sendo campeão nacional pelo Monterrey em 1986. Passaria ainda pelo Cruzeiro, em 1989, e São José, em 1990, antes de voltar a atuar no futebol alagoano, primeiro pelo Comercial de Viçosa, e posteriormente, por quase três anos, onde tudo começou o CSA. Terminaria a carreira por lá, aos 34 anos, sendo campeão alagoano em 1994. Peu foi um jogador vencedor, que nasceu dentro do futebol, em uma família muito simples que sempre viveu do esporte, e que ganhou o mundo, literalmente, ao fazer parte de uma das maiores equipes da história do futebol mundial, sem que em momento algum, no entanto, chegasse a perder a sua ingenuidade e verdade.

 

 

O Maior Artilheiro Azulino, Alcino

Autor: José Renato - 11/01/2016   Comentários Nenhum comentário

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Alcino Neves dos Santos nasceu em uma família pobre do subúrbio carioca em 24 de março de 1951. Desde muito pequeno seu grande sonho era jogar futebol e foi com muita alegria que recebeu a notícia que fora aprovado nos testes para jogar no Flamengo, que passou a lhe dar uma pequena ajuda financeira. Embora morasse longe, graças à ajuda de seu pai, conseguia pagar o transporte para treinar. A morte paterna caiu como uma bomba junto à família. Sem dinheiro para chegar a Gávea, Alcindo precisou abandonar o clube, quase na mesma época em que sua mão adoeceu. O desespero de precisar colocar dinheiro em casa e as más companhias acabaram por levá-lo a praticar um assalto a um motorista de taxi, com uma arma de brinquedo. Preso juntamente com o amigo, Damião, foi liberado enquanto o inquérito corria. Logo o futebol o daria nova chance, agora na equipe do Madureira. Após disputar a Taça Guanabara, logo na sua estreia em campeonato carioca em 28 de junho de 1970, marcou gol no empate por 1 gol frente ao São Cristovão. Atacante alto, 1,91m, ótimo cabeceador, apesar de pouca habilidade técnica, sabia se posicionar como poucos na grande área e tinha um raro poder de finalização. Boas atuações e gols durante sua primeira temporada voltaram a atrair a atenção de outra grande equipe, desta vez, o Fluminense. Os dirigentes da equipe do subúrbio acabaram dificultando as negociações com o tricolor e seu destino acabou sendo o Clube do Remo, do Pará. Polêmico, em uma de suas primeiras partidas pela equipe azulina, em 4 de abril de 1971, justamente na vitória por 2 a 0 em um clássico frente ao Paysandu, no estádio da Curuzu, depois de driblar toda a defesa adversária, sentou sob a bola e fez o chamado “gol de bunda”. Acabou expulso pelo árbitro, que achou o ato desrespeitoso com o adversário, mas ganhou de vez a moral da torcida remista. Pelo campeonato paraense daquele ano, teve atuações históricas, ainda que não viesse a conquistar o titulo estadual. Na final da competição frente ao rival Paysandu, em 13 de outubro, colocou o Remo em vantagem, com 2 gols. A 10 minutos do final da partida a equipe remista sofreu o empate, provocando uma prorrogação que acabou com vitória do Papão por 1 a 0. Ainda naquele ano, se recusou a viajar para Aracaju na primeira partida válida pelas semifinais do campeão brasileira da segunda divisão frente o Itabaiana em 5 de dezembro. No jogo de volta, foi colocado no banco de reservas pelo técnico François Thym. Após 0 a 0 no primeiro tempo, acabou entrando após o intervalo, e embora não tenha feito gol, incendiou o jogo, sendo essencial na vitória por 2 a 0, gols de Robilota. A torcida invadiu o gramado e levantou o atacante gigante como herói, o levando às lágrimas. Aquela equipe do Remo seria vice-campeã da competição ao perder as finais para a equipe mineira do Villa Nova de Nova Lima. Irreverente e admirador da noite, Dadinho passou a aprontar fora de campo. No Mosqueiro, onde o Remo costumava concentrar para grandes partidas, tinha como hábito desfilar nu em cima do seu opala envenenado. Em dezembro de 1973, titularíssimo da equipe azulina, os jornais do Pará estamparam em suas manchetes que o inquérito do assalto cometido no passado houvera sido concluído com a sua condenação a cinco anos e quatro meses. Os dirigentes remistas chegaram a escondê-lo para evitar sua prisão, enquanto os advogados do clube conseguiram livra-lo da condenação por conta dele estar plenamente recuperado e feito um crime quando ainda era menor de idade. Dadinho se transformou no maior nome do futebol paraense nos anos de 1973, 1974 e 1975, sendo tricampeão estadual e artilheiro das três edições com 7, 12 e 21 gols respectivamente. No entanto, foram suas atuações no campeonato brasileiro que o fizerem ganhar notoriedade em todo o país. Na edição de 1974, em 10 de março, no empate por 2 gols frente ao Botafogo do Rio de Janeiro, ao ver a bola parar em uma poça d´água a poucos centímetros da linha do gol, não se furtou a se jogar de cabeça para marcar o gol e empatar a partida. Já no ano seguinte, em 25 de outubro, foi dele, de cabeça, o primeiro gol da vitória remista frente ao Flamengo de Zico, por 2 a 1, no primeiro triunfo de uma equipe paraense no estádio do Maracanã. Seus feitos o fizeram ser contratado pelo Grêmio em 1976. Com a camisa do Imortal Tricolor, conseguiu ser o artilheiro máximo do campeonato gaúcho, com 19 gols marcados, embora tivesse perdido o título do estadual para o Internacional. O frio intenso para quem estava acostumado a jogar nas altas temperaturas do Pará e a dificuldade em manter o peso, acabaram fazendo com que, logo após o campeonato brasileiro daquele ano, fosse negociado com a Portuguesa de São Paulo. Aos 26 anos de idade e pesando 97 quilos, sua estreia na Lusa foi promissora, em 27 de março de 1977, numa goleada por 3 a 0, com direito a um gol, frente ao São Paulo em partida realizada no Pacaembu e válida pelo campeonato paulista. Para a imprensa da época, enfim a Portuguesa teria um parceiro ideal para seu craque Eneias. A dificuldade em manter um bom preparo físico, no entanto, continuou sendo seu principal inimigo. Para piorar, em 21 de outubro de 1978, após marcar o gol da vitória da Portuguesa frente o Paulista de Jundiaí, por 1 a 0, correu para comemorar sambando junto a torcida. A euforia demonstrada pelo atacante chamou a atenção do médico da Federação Paulista de Futebol, Hélio Grillo, que resolveu chama-lo para fazer o exame antidoping ao final da partida. O resultado do exame foi positivo para o uso de um inibidor de apetite, receitado, segundo o atleta, pelo próprio médico da Portuguesa. Por conta disso, o clube correu riscos de perder os pontos ganhos na partida e preventivamente Alcino foi suspenso por 60 dias. Afastado do clube e sem treinar, acabou esquecido, sendo emprestado para a equipe do Atlético Goianiense que participaria do campeonato brasileiro de 1980. Embora continuasse marcando seus gols, não conseguia se manter na equipe por muito tempo. No segundo semestre daquele ano foi contratado pela Internacional de Limeira. Fez algumas boas partidas pela equipe do interior que chegou as semifinais do campeonato paulista de 1980. Ainda assim, no ano seguinte foi emprestado ao Bangu para disputar o campeonato brasileiro. Ao final da competição, de volta a Limeira, acabou sendo negociado com o grande rival do “seu” Clube do Remo, o Paysandu. Em 1981, aos 30 anos de idade, sua contratação agitou ainda mais a rivalidade entre os dois clubes, no entanto, em campo, estava claro que o fim da carreira estava próximo. Foram apenas 5 partidas pelo Papão, sendo 4 delas amistosas. Com apenas 1 gol marcado e mais um caso de indisciplina, foi afastado antes do término do campeonato paraense. Sua fama de artilheiro, no entanto, o fez ser contratado em 1982 pela equipe amazonense do Rio Negro. Vice-artilheiro da equipe com 8 gols e campeão do estadual, ainda chegou a disputar seu ultimo campeonato brasileiro em 1983. Logo estaria de volta ao futebol paraense, defendendo a pequena equipe do Pinheirense, onde encerraria a sua carreira. Alcino foi um retrato do jogador de origem simples, que em um momento de fraqueza se envolveu com o submundo do crime, ganhou do futebol a chance de se reerguer, mas que não teve equilíbrio para crescer com ele. Ainda assim, considerado o maior jogador da história do Clube do Remo, é admirado como ídolo por milhares de torcedores.



 

 

Paulo Cézar, o genial polêmico craque Caju

Autor: José Renato - 14/12/2015   Comentários 2 comentários

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Paulo Cézar Lima nasceu em 16 de junho de 1949 na favela da Cachoeira, em frente ao cemitério São João Batista no tradicional bairro carioca de Botafogo. Sua roda familiar incluía sua mãe, Dona Esmeralda, conterrânea do Rei Pelé, empregada doméstica, e sua irmã, mais velha, Célia Maria. Seu pai, marceneiro, morreu quando ele ainda tinha apenas um mês de nascido. O futebol surgiu em sua vida por meio dos jogos que costumava participar nas quadras do quartel da polícia militar e no campo do Botafogo, onde passou a atuar na equipe infantil, que ficavam perto da sua casa. Aos 11 anos foi convidado para jogar futebol de salão no Flamengo, onde ganhou o apelido de Pelezinho. No rubro negro, fez uma grande amizade com Fred, filho de Marinho Rodrigues de Oliveira, ex-jogador e técnico do Botafogo, o que mudaria de forma marcante seu futuro. A família de Fred praticamente o adotou, e tão logo Marinho foi convidado para treinar a seleção de Honduras, Paulo Cézar, com o consentimento da mãe, se mudou com a nova família para Tegucigalpa. Marinho logo assumiu o papel de pai adotivo e passou a exercer forte influencia em sua educação. Em meados de 1966, após passar por Colômbia e Peru, onde juntamente com Fred, foi convidado para se naturalizar, Paulo César voltou com a família para o Brasil. Levado por Marinho ao Flamengo, foi dispensado pelo técnico Flávio Costa. Na semana seguinte, no entanto, ganhou uma oportunidade no Botafogo do técnico Admildo Chirol. Logo no primeiro coletivo, em janeiro de 1967, teve atuação soberba, atuando pela equipe titular, deixando boquiaberta toda comissão técnica do time principal, e muito aborrecido o técnico do juvenil, Zagallo, que preferia contar com sua participação na equipe alvinegra que buscava o hexacampeonato da categoria. Foi necessária a intervenção de Gerson junto à diretoria para que Paulo Cézar fosse mantido na equipe principal. Jogando como ponta esquerda em um ataque formado também por Rogério, Roberto e Jairzinho, sua habilidade e rara visão de jogo, logo se tornaram imprescindíveis para o Botafogo. Em sua primeira competição oficial, a Taça Guanabara daquele ano, na partida final frente ao América, em 20 de agosto, marcou três gols, na vitória por 3 a 2, conquistada na prorrogação, após empate em 2 gols durante o tempo regulamentar. Em seguida voltou a ser campeão, desta vez do campeonato carioca, com o Botafogo que venceu 15 das 18 partidas que disputou. Ainda naquele ano estreou na seleção brasileira, em 19 de setembro, na vitória por 1 a 0 frente ao Chile, em partida amistosa, realizada em Santiago, que também marcou a estreia do Zagallo como técnico da seleção. Já o ano seguinte, de 1968, foi de afirmação para Paulo Cézar, que conquistou o bicampeonato da Taça Guanabara e do Campeonato Carioca, bem como a Taça Brasil, cujas finais aconteceram apenas em 4 de outubro de 1969. Sua presença passou a ser constante na seleção brasileira. Com apenas 20 anos de idade, foi convocado para a seleção brasileira que disputaria a Copa do Mundo de 1970. Era o décimo segundo jogador daquela equipe espetacular. Logo na estreia, em 3 de junho, na vitória por 4 a 1 frente a Tchecoslováquia, entrou no lugar de Gerson, que houvera se contundido. Titular nas vitórias frente a Inglaterra, 1 a 0, e Romênia, 3 a 2, também atuou na partida contra o Peru, 4 a 2. Campeão mundial continuou brilhando na equipe alvinegra, até que em 1971, se deixou fotografar com a faixa de campeão carioca antes do final da competição. A surpreendente queda de rendimento da equipe da Estrela Solitária e a ascensão do Fluminense, fez com que o titulo ficasse com a equipe das Laranjeiras e Paulo Cézar, embora tivesse sido artilheiro da competição com 11 gols, passasse a ser criticado pelos dirigentes alvinegros, sobretudo pelo presidente do clube, Altemar Dutra de Castilho que o culpou pela perda do titulo. Ainda disputou pelo Botafogo a primeira edição do campeonato brasileiro em 1971, quando a equipe chegou ao triangular final com o Atlético Mineiro, que foi o campeão, e o São Paulo, o vice. O clima pesado no Botafogo, o levou a mudar de ares e no começo de 1972 estava de volta ao Flamengo, desta vez como atleta profissional. Sua estreia com a camisa rubro negra aconteceu em 8 de janeiro, justamente frente ao antigo clube, seu time do coração, o Botafogo no empate por 1 a 1 em partida amistosa. Viveu um grande ano na Gávea, conquistando a Taça Guanabara e o Campeonato Carioca, no ano do Sesquicentenário da Independência. Além do sucesso em campo, Paulo Cézar costumava chamar a atenção por seu estilo de vida. Gostava de sair à noite, embora não bebesse e fumasse, e costumeiramente se apresentava com carros luxuosos e roupas bem extravagantes. Também não fugia de uma boa polemica, cobrando dirigentes e se posicionando sobre quaisquer assuntos. Além disso, passou a pintar o cabelo de caju, segundo ele apenas um efeito do sol carioca, o que fez com que passasse a ser conhecido como Paulo Cézar Caju. Já em 1973, conquistou novamente a Taça Guanabara e foi vice-campeão carioca, perdendo a final para o Fluminense em 22 de agosto por 4 a 2. Durante o campeonato brasileiro, no entanto, sofreu com a má campanha da equipe rubro negra, até que na derrota por 2 a 1 para o Grêmio, em 28 de outubro, no estádio do Maracanã, quase foi agredido pela torcida, que destruiu seu carro. Aborrecido, deixou acertada sua contratação pela equipe francesa do Olympique de Marseille, antes da Copa do Mundo de 1974, deixando sua apresentação oficial apenas após o termino da competição. Por conta disso, a imprensa alegou que Paulo Cézar tivesse evitado entrar em bolas divididas durante a Copa do Mundo disputada na Alemanha. O fato é que Paulo Cézar, com 25 anos, titularíssimo daquela seleção, atuou muito mal nos dois empates sem gols, contra Iugoslávia e Escócia, e perdeu a posição de titular. Deslocado para o meio campo, voltou à equipe na segunda fase, no entanto, ficou muito aquém daquilo que se esperava dele. Atuou no futebol francês, juntamente com Jairzinho, por pouco mais de um ano, sendo vice-campeão francês da temporada 1974/1975 e campeão da Copa do França em 1975. Ainda na França foi assistir a uma partida do Fluminense que disputava um torneio em Nice, quando acabou conhecendo o presidente tricolor Francisco Horta, que não perdeu a chance de convidá-lo para voltar ao Brasil e fazer parte da Máquina Tricolor, uma das maiores equipes da historia do clube, liderada por Rivellino. Com a camisa tricolor, foi bicampeão carioca, duas vezes semifinalista do campeonato brasileiro e voltou a ser convocado para a seleção brasileira que se preparava para as eliminatórias da Copa do Mundo de 1978. As confusões, no entanto, não foram deixadas de lado. Em 17 de setembro de 1976, a delegação carioca que estava na Paraíba para enfrentar o Treze, em partida válida pelo campeonato brasileiro, acabou se envolvendo em uma confusão com os torcedores paraibanos e no meio do tumulto, Paulo Cézar aplicou uma rasteira em um jovem. O atacante acabou sendo preso e passando a noite no II Batalhão de Polícia Militar, sendo posto em liberdade na manhã seguinte, após o pagamento de fiança. Embora estivesse muito bem nas Laranjeiras, no começo de 1977, Caju acabou sendo envolvido juntamente com Gil e Rodrigues Neto em uma troca pelo lateral esquerdo botafoguense Marinho Chagas. De volta ao time de seu coração, Paulo Cézar fez parte da equipe que alcançou a incrível marca de 52 jogos sem perder, uma das maiores invencibilidades da história do futebol brasileiro. Apesar disso, as conquistas não vieram e após brigar com o presidente Charles Borer, preferiu permanecer os últimos três meses de seu contrato sem atuar, nem receber, do que voltar a vestir a camisa alvinegra. Já seu sonho de disputar sua terceira Copa do Mundo acabou ainda nos vestiários da vitória brasileira por 1 a 0 frente a seleção peruana em 10 de julho de 1977, em partida realizada na cidade colombiana de Cali, que praticamente garantiu a vaga brasileira para a Copa da Argentina. Aproveitando a presença do presidente da CBD, atual CBF, o almirante Heleno Nunes, Paulo Cézar passou a reivindicar uma premiação maior aos jogadores. Ao ser ignorado pelo dirigente, se dirigiu a ele afirmando que ele deveria estar cuidando de seus navios e armas, pois de futebol não entendia nada. Oficialmente foi afastado por problema no joelho direito, mas de fato, jamais voltou a vestir a camisa da seleção brasileira. O ano de 1979 começou em um novo clube, o Grêmio de Porto Alegre, onde foi recepcionado de forma calorosa pelos torcedores gaúchos que lotaram o aeroporto em sua chegada as terras gaúchas. Em campo correspondeu com as expectativas, sendo campeão gaúcho com uma campanha espetacular, com 10 pontos a frente do rival Internacional que acabou na terceira colocação, atrás ainda do Esportivo de Bento Gonçalves. Aos 30 anos, embora os torcedores e dirigentes quisessem mantê-lo por lá, a saudade das praias cariocas acabou sendo maior, e ele acabou sendo envolvido em uma troca com o goleiro Leão, indo para o Vasco da Gama, o único grande carioca onde ainda não tinha atuado. Não foi bem na equipe da Cruz de Malta, muito embora tenha sido vice-campeão carioca de 1980. Durante sua estadia em São Januário, chegou a ser negociado como o Barcelona de Guayaquil, mas não aguentou mais de dois dias na Colômbia. Cansado de jogar futebol, resolveu passar férias, longe da bola, na França. No segundo semestre de 1981, aceitou o desafio de atuar no futebol paulista, cuja imprensa costumava criticá-lo de forma impiedosa. Contratado pelo Corinthians, estreou no clássico frente ao São Paulo em 25 de outubro, na derrota por 2 a 0. Atuaria apenas mais três vezes pela equipe paulista, sem grande destaque. No começo de 1982, recebeu a ligação de seu amigo Carlos Alberto Torres para atuar na equipe norte- americana do California Surf. Apenas passeou pelas terras de Tio Sam e logo estaria de volta à França, onde passou a atuar, a pedido de um amigo, em uma equipe da terceira divisão, o AS Aix. Tinha a certeza de que tinha parado de jogar futebol e seguiu por novos caminhos, não tão promissores, o das bebidas e das drogas, mais especificamente cocaína. Em julho de 1983, no entanto, recebeu a ligação de Antônio Verardi, supervisor do Grêmio, o convidando para disputar a final do Mundial Interclubes no final do ano frente à equipe alemã do Hamburgo. Ciente de seus problemas, os dirigentes gremistas prepararam Paulo Cézar para esta partida. Deu certo, em 11 de dezembro de 1983, a equipe gaúcha conquistou o Mundial ao vencer os alemães por 2 a 1, com dois gols de Renato Gaúcho. Esta foi sua ultima partida como profissional. Paulo Cézar Caju foi um jogador genial, um dos maiores talentos da história do futebol brasileiro e que não deixou de aproveitar a vida da forma que quis, ignorando as criticas e sempre deixando claro suas posições frente a dirigentes e jornalistas. O futebol de hoje sente muito a falta de jogadores como ele.



 

 

O recordista Marinho Macapá

Autor: José Renato - 07/12/2015   Comentários Nenhum comentário

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Marinho Carlos da Silva Santos nasceu na cidade da Macapá, capital do Amapá, em 16 de janeiro de 1955. Vivia com sua família, próximo a Curiaú, onde desde muito jovem passou a trabalhar em uma roça de mandioca, onde ao que tudo indica ganhou o preparo físico que sempre foi seu ponto forte. Tinha como lazer, participar das peladas nas praças do Laguinho, que eram organizadas pelos padres das paroquias locais. Nos campeonatos internos entre as equipes paroquiais, muitos jogadores locais eram revelados, dentre eles Marinho que logo foi convidado para fazer parte do Ameriquinha.

Aos 17 anos foi jogar nos juvenis do maior clube da cidade, o Esporte Clube Macapá, onde sonhara fazer parte da equipe principal. Sem muitas oportunidades, acabou indo para o América Manganês de Serra do Navio e em seguida já estava no Independente. Contratado pelo Santana Esporte Clube, para disputar o campeonato amapaense de 1976. Marinho foi um dos destaques da equipe que foi vice-campeã do Amapá ao empatar sem gols com o Ypiranga em 8 de dezembro daquele ano. Jogando como volante e considerado um marcador implacável, a imprensa passou a afirmar que “ele não cansava nunca”.

Passou pelo Fluminense de Santarém, onde ficou pouco tempo, e de onde saiu para defender o Guarani Atlético Clube, ajudando a equipe a conquistar seu primeiro título do campeonato amapaense em 1977. No ano seguinte, em 1978, de passagem por Manaus, o Guarani disputou uma partida amistosa com o Nacional, então campeão amazonense, que se preparava para disputar o campeonato brasileiro. Embora estivesse recheado de “medalhões” o Nacional não conseguiu sair de um empate por 1 gol, muito por conta da grande atuação de Marinho. Embora não tivesse muita habilidade, o que chamou a atenção do técnico amazonense Laerte Dória, foi a disposição demonstrada por Marinho, para quem não havia bola perdida.

Contratado juntamente com o seu companheiro Bolinha, Marinho chegou ao Nacional para disputar o campeonato amazonense de 1979, onde agregou ao seu nome, o do seu estado de origem, Macapá. A princípio viria apenas para ser reserva, no entanto, sua estreia na equipe aconteceu logo na primeira rodada da competição em 14 de abril substituindo o lateral titular, Soló, na goleada por 6 a 0 frente ao Sul América. De volta ao banco de reservas, conquistaria seu primeiro título amazonense naquele ano.

Já como titular, a partir de 1980, Marinho Macapá passou a impor uma rotina de títulos, inédita e jamais alcançada por qualquer jogador que atuou no futebol amazonense. Campeão pelo Nacional em 1980 e 1981 perdeu a chance de conquistar seu quarto titulo em 1982, por conta dos dirigentes nacionalinos terem impedido a equipe de ir enfrentar o rival Rio Negro, na partida decisiva marcada para o dia 25 de novembro. Seu bom futebol acabou chamando a atenção de equipes do nordeste, no caso de dois Américas, o de Natal e o do Ceará, onde atuou durante 1983. De volta ao Amazonas, em 19 de julho de 1984 teve a incrível experiência de atuar ao lado de Rivelino, convidado especial, Dario, em sua estreia na equipe, e Edu, no empate por 1 a 1, em partida amistosa disputada entre Nacional e Remo. Voltaria a ser campeão estadual em 1984, 1985 e 1986, neste ultimo, segundo palavras do próprio Marinho, na final mais emocionante que disputou na vitória por 1 a 0 frente ao rival Rio Negro, em 27 de agosto, com o estádio Vivaldo Lima completamente lotado.

Em 1987, foi surpreendido com o convite para atuar justamente no Rio Negro, onde embora não tenha conseguido se firmar como titular foi campeão estadual em 1987 e 1988, na verdade pentacampeão de forma consecutiva. De volta ao Nacional e novamente como titular seria vice-campeão estadual em 1989 e 1990 e as vésperas de completar 37 anos, foi campeão em 1991. Continuou como titular do Nacional até 1994, conquistando seu ultimo titulo amazonense, em 1995, com mais de 40 anos de idade. Ao longo de sua carreira, foram 11 títulos estaduais, 1 no Amapá e 10 no Amazonas, sendo o jogador com o maior número de conquistas na história do futebol amazonense.

Marinho Macapá foi um jogador de exceção, vindo de um estado com pouquíssima representatividade no futebol brasileiro, que se tornou quase que um selo de garantia para as equipes que almejavam o título no estado em que escolheu para fazer sua carreira.



 

 

O anjo negro, Eneas

Autor: José Renato - 30/11/2015   Comentários Nenhum comentário

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Eneas de Camargo nasceu no bairro do Jaçanã, na cidade de São Paulo, em 18 de março de 1954. Filho de Arnaldo de Camargo e Enedina Gomes de Camargo, assim como os irmãos, Edir, Ednilson, Elias e Edméia, recebeu um nome bíblico, no caso de um paralítico que houvera sido curado pelo apostolo Pedro, São Pedro. Quando a família se mudou para morar no Canindé, o menino de ainda 11 anos passou a frequentar a Portuguesa, onde logo começou a fazer parte da equipe de futebol de salão. Atuando como pivô, ao ser vice-campeão metropolitano em 1966, chamou a atenção do técnico da equipe juvenil e ex-atleta da Lusa, Nena, e passou para o futebol de campo. Aos 16 anos, em jogo treino contra a equipe titular, marcou dois gols, na vitória de 3 a 1 dos juvenis, passando a ser tratado como o “Pelezinho do Canindé”. Ainda amador, estreou na seleção brasileira olímpica em 1971, durante o Torneio Pré-Olímpico de Cali, na Colômbia, juntamente com outros dois estreantes que fizeram história no futebol brasileiro, Zico e Falcão. O título foi conquistado de forma invicta, com Éneas marcando gol na partida final frente o Peru, no dia 11 de dezembro. No ano seguinte, em 1972, assinaria seu primeiro contrato como profissional para atuar na Portuguesa do técnico Cilinho. Muito habilidoso e com o dom de dar dribles curtos, começou atuando no meio campo, com a função de armar e ajudar na marcação, o que para o técnico Oto Glória, recém-chegado a Portuguesa em 1973, era um grande desperdício, tamanha sua facilidade de chegar à área adversária. Acabou deslocado para atuar mais próximo ao ataque, e como ponta de lança, passou a ser o grande nome da equipe do Canindé, se tornando um dos grandes artilheiros do time. Após ser campeão da Taça São Paulo de 1973, competição promovida pela Federação Paulista de Futebol durante os 45 dias da excursão da seleção brasileira pela África e Europa, marcando gol na goleada por 3 a 0 frente o Palmeiras no dia 1° de julho, foi a grande revelação do campeonato paulista daquele ano, quando a sua Lusa dividiu o título estadual com o Santos de seu ídolo Pelé, em controversa final realizada em 26 de agosto. Servindo o Exército no 2° Batalhão de Guardas, no bairro do Cambuci, precisava ficar no quartel todos os dias entre às 6:00 e 14:00, o que fez com que desfalcasse a Portuguesa durante algumas partidas do campeonato brasileiro daquele ano. Nos tempos de quartel, brincava que vivia alguns “apuros” por conta das vitórias da Portuguesa frente o Corinthians. Enquanto recebia elogios do Tenente Fernandes, palmeirense, era colocado na cadeia pelo Tenente Landini, alvinegro. Se algumas equipes já tinham demonstrado interesse em sua contratação, sua primeira convocação para a seleção brasileira principal serviu para aumentar ainda mais este desejo por contar com seu futebol. Sua estreia com a camisa canarinha aconteceu no empate por 1 gol frente a seleção mexicana, em partida amistosa realizada no estádio do Maracanã, no dia 31 de março de 1974. Entrou durante a segunda etapa, no lugar de Mirandinha, mas não convenceu o técnico Zagallo que não o levou para a Copa Mundo da Alemanha. Suas atuações primorosas se revezavam com momentos de certa displicência, o que chegou a passar uma imagem de lento, em acusação injusta, similar a feita a outro fantástico jogador, Ademir da Guia. Ainda assim, o assédio continuava grande e os dirigentes da Lusa se mantinham irredutíveis na decisão de não vender seu principal jogador. No ano seguinte, em 1975, novamente levaria a Portuguesa as finais do campeonato paulista, desta vez frente ao São Paulo, que levou a melhor na decisão por pênaltis em partida realizada em 17 de agosto, após ser derrotado no tempo normal, por 1 a 0 com gol do próprio Enéas. Em 19 de fevereiro de 1976 comandou a Lusa em mais uma conquista, da Taça Governador do Estado de São Paulo, na goleada frente ao Guarani de Campinas por 4 a 0. Novamente convocado para a seleção, desta vez pelo técnico Osvaldo Brandão, foi titular nas partidas frente ao Paraguai, em 7 de abril de 1976, quando marcou o gol do empate de 1 a 1, e contra o Uruguai, no dia 28, na vitória por 2 a 1. Suas atuações, no entanto, não convenceram o experiente técnico, e Éneas não foi mais convocado. Continuou na Portuguesa, sempre sendo o principal nome da equipe enquanto esteve por lá, e mantido por dirigentes que não abriam mão de sua permanência no Canindé, o que sem duvida alguma prejudicou muito a sua carreira. Novamente destaque da equipe da Portuguesa que liderou todo o primeiro turno do campeonato paulista de 1980, acabou sendo contratado pela equipe italiana do Bologna, desfalcando a Lusa justamente nas finais do turno. Sua ultima partida com a camisa rubro verde aconteceu em 13 de julho de 1980 no empate por 1 a 1 frente a Internacional de Limeira. Ao todo atuou 376 vezes pela Portuguesa e marcou 179 gols, sendo o segundo maior artilheiro da historia do clube atrás apenas de Pinga, com 190 gols. Na Europa, o frio e a forte marcação do futebol italiano foram os grandes obstáculos para Éneas, que teve apenas lampejos de craque. Em 5 de outubro de 1980 teve uma atuação primorosa na vitória da equipe por 1 a 0 frente a grande Juventus, em plena cidade de Turim, que seria a campeã italiana da temporada de 1980/81, chegando a sofrer o pênalti que deu origem ao gol de seu time. Ainda assim, muito pouco diante de toda a expectativa gerada. Logo após sua primeira temporada, com 20 jogos disputados e 3 gols marcados, foi negociado com o Palmeiras. Seu retorno ao futebol brasileiro ganhou grande destaque, e foi considerada uma das maiores já realizadas até então. Sua estreia em 19 de agosto de 1981, na derrota por 2 a 1 frente ao Comercial de Ribeirão Preto em partida valida pelo campeonato paulista, no entanto, foi um sinal do que seria sua trajetória no alviverde. Atuando em uma equipe que sequer conseguiu uma vaga para o campeonato brasileiro de 1981 e 1982, uma vez que o campeonato estadual servia de classificação para a competição, e sofrendo com muitas contusões, sobretudo em seu joelho direito, Éneas foi apenas uma sombra do craque que despontara na Lusa. Ao final de 1983, após atritos com os técnicos Rubens Minelli e posteriormente com Carlos Alberto Silva, que assumira a equipe em 1984, acabou afastado da equipe por quase 8 meses. Deixou definitivamente o alviverde, após 93 partidas e 28 gols marcados, emprestado gratuitamente para atuar pelo XV de Piracicaba. Sua estreia na equipe do interior paulista foi promissora, na vitória por 2 a 1 frente o América de São José do Rio Preto, em 26 de agosto de 1984. Ledo engano. Em claro declínio técnico logo mudaria de ares. Passaria por Atlético Goianiense, Operário de Ponta Grossa e Juventude de Caxias do Sul, até, aos 32 anos, ser contratado pela Desportiva Ferroviária do Espirito Santo, para atuar nas partidas finais do campeonato capixaba de 1986. Em 6 jogos, marcou 6 gols, incluindo o decisivo da vitória por 2 a 1 frente ao Rio Branco, que valeu pelo titulo estadual em 25 de maio. Sua ultima equipe foi o Central Brasileira de Cotia em 1988. Éneas foi um dos maiores jogadores da história do futebol brasileiro, dono de um talento raro e uma vítima de dirigentes que impediram seu crescimento profissional, em seu maior momento, sob a alegação do amor ao clube. Em outros tempos, sem a legislação vigente, em sua época, referente ao passe dos atletas junto aos clubes, teria sido, como atleta, muito mais do que foi.



 

 

O Indomável Serginho Chulapa.

Autor: José Renato - 23/11/2015   Comentários Nenhum comentário

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Sergio Bernardino nasceu no bairro da Casa Verde, na cidade de São Paulo em 23 de dezembro de 1953. Filho do meio do casal Otávio Bernardino e Laura. Juntamente com os irmãos Zé Carlos e Sônia, Serginho começou a trabalhar cedo para ajudar com as despesas de casa. Inicialmente como entregador de leite, posteriormente, ajudando a mãe em uma confecção. Palmeirense durante a infância, o menino adorava bater uma bola, e chegou a atuar em várias equipes de várzea da zona norte paulistana. Negro, magro e alto, só chutava com o pé esquerdo, por conta disso passou a ser conhecido como Esquerdinha. Após ter dois de seus amigos inseparáveis mortos em confronto com a polícia, passou a enxergar o futebol como uma forma de seguir outro caminho. Ainda assim, após ser reprovado em testes no Palmeiras e Portuguesa, resolveu que iria trabalhar na Telesp, atual Telefonica. Poucos dias antes, no entanto, ainda com 16 anos, juntamente com um amigo, Mauro Madureira, resolveu fazer uma peneira no São Paulo, no bairro do Bom Retiro. Naquele dia, chamou a atenção do treinador da categoria de base tricolor e ex-goleiro, José Poy. Foi convidado a treinar no clube. Seu começo no São Paulo não foi fácil. Sob o comando do técnico Telê Santana chegou a realizar algumas partidas na equipe profissional. Sua estreia aconteceu em 6 de junho de 1973, como Sergio II, por conta do goleiro tricolor se chamar Sergio, na verdade, Sergio Valentim, no empate sem gols frente ao Bahia, em partida amistosa realizada em Salvador. Jogando como ponta, não convencia e por mais que tenha feito um gol, no empate frente ao Corinthians por 1 a 1, logo em sua segunda partida, em 10 de junho, acabou sendo emprestado para o Marilia. Na “capital brasileira do alimento”, jogou pouco, mas foi lá que aconteceu um fato que chegou a ter influencia em sua carreira, a gravidez de uma namorada. Ameaçado de morte pelo pai da moça, um delegado de polícia, o jeito foi voltar ao Tricolor e desde então evitar, ao máximo, voltar para Marília, nem que para isso fosse necessário simular contusões ou provocar expulsões. Certa vez ao notar que Serginho estava reclamando demais de suas marcações, o arbitro Dulcídio Wanderley Boschilia, logo se ligou que o atacante estava tentando forçar sua exclusão da próxima partida do São Paulo. Dulcídio o chamou de lado e falou: “....negão, você pode até matar alguém aqui hoje, que eu não te expulso.” Preocupado, restou a Serginho simular uma contusão no finalzinho da partida. De volta ao São Paulo em 1974, desta vez tendo Poy, seu descobridor, como técnico, logo em sua segunda partida após o retorno, marcou três gols, na goleada frente ao Rio Negro por 4 a 2, no dia 13 de março, em partida válida pelo campeonato brasileiro. Serginho foi bem naquela competição, marcando 9 gols em 11 partidas disputadas, ainda assim era reserva de outra grande atacante, Mirandinha. Em 24 de novembro daquele ano, no entanto, uma tragédia mudaria esta realidade. Em partida frente ao América de São José do Rio Preto, válida pelo campeonato paulista, após uma dividida com o zagueiro Baldini, Mirandinha fraturou a tíbia e o perônio de sua perna esquerda. A partida estava 1 a 0 para o tricolor, quando Serginho entrou no seu lugar e marcou mais dois gols da vitória por 3 a 0. Não saiu mais do time Passou a marcar gol de todo jeito, sobretudo por conta de uma rara habilidade, seu ponto forte, de jogar junto aos seus marcadores e usar o seu corpo para levar a melhor. Logo deixou o Sérgio II de lado e virou, definitivamente, Serginho. Pouco tempo depois, por conta do tamanho dos pés grandes, calçava 45, ganhou do atacante Terto, o apelido de Chulapa. Campeão paulista de 1975 e artilheiro da competição com 22 gols, Serginho passou a ser a grande referência da equipe tricolor, responsável pela maioria dos gols da equipe, o que acabou lhe rendendo o titulo de maior artilheiro da história do São Paulo, com 239 gols em 396 partidas oficiais. Novamente artilheiro do campeonato paulista em 1977, com 32 gols, era considerado, juntamente com Reinaldo, do Atlético Mineiro, um dos principais centroavantes do campeonato brasileiro de 1977. Até que em 12 de fevereiro de 1978 em partida frente ao Botafogo de Ribeirão, após ter um gol anulado, o que seria o de empate, aos 45 minutos do segundo tempo, partiu para cima do bandeirinha, Vandevaldo Rangel, o agredindo com um chute na canela. Expulso, acabou sendo punido com uma suspensão de 14 meses, da qual cumpriu 11 deles, a maior de um jogador na história do futebol brasileiro. O período fora dos campos acabou impedindo a sua convocação para a Copa do Mundo de 1978, segundo jornalistas da época por orientação do dirigente da CBD, atual CBF, o vascaíno Almirante Heleno Nunes, que queria Roberto Dinamite no selecionado. O fato é que Serginho vivia a sua melhor fase naquele ano. Suspenso, ficou ausente da partida final contra o invicto Atlético no Mineirão. Ainda assim, a pedido de dirigentes do tricolor, atendeu o chamado do amigo Muricy e chegou ao estádio mineiro de helicóptero momentos antes do inicio da partida. Aqueceu com os colegas e passou a nítida impressão que entraria em campo, passando aos mineiros certa preocupação que acabou contribuindo com a tarde pouco inspirada daquela que era considerada a melhor equipe da competição, mas que acabou sem o titulo, que ficou com o São Paulo. Voltou aos campos apenas em janeiro de 1979 para a disputa do campeonato paulista de 1978. Poucos meses depois, em 17 de junho daquele ano, coube a ele marcar um espetacular gol de cabeça, aos 14 minutos do segundo tempo da prorrogação frente ao Palmeiras, na vitória tricolor por 1 a 0 e que valeu a vaga para a final do Paulistão, que acabou sendo conquistado pelo Santos. A vingança, no entanto, viria no ano seguinte, quando Serginho marcou os dois gols das duas vitorias do tricolor por 1 a 0 nas partidas finais, em 16 e 19 de novembro, válidas pelo campeonato paulista de 1980, frente ao mesmo Alvinegro Praiano. No ano seguinte, em 1981, mais um titulo paulista, desta vez após vitória por 2 a 0 frente a Ponte Preta, em 29 de novembro, com direito a um gol após dar um chapéu no goleiro Carlos. Ainda naquele ano, poucos meses antes, voltou a se envolver em confusão. Sofrendo com hemorroidas, por orientação dos médicos do São Paulo, quando em crise, passou a utilizar absorvente intimo. Em 3 de maio de 1981, na final do campeonato brasileiro frente ao Grêmio, no estádio do Morumbi, o goleiro do tricolor gaúcho, Leão, ficou sabendo e passou a provocá-lo. Perdendo por 1 a 0 e vendo a conquista nacional escapando, aos 43 minutos do segundo tempo, Serginho não perdeu a oportunidade de dar um violento encontrão no goleiro e posteriormente dar um leve chute em seu rosto. Expulso, embora em grande fase, novamente passou a ser questionado quanto a eventual convocação para a Copa do Mundo de 1982. Do seu lado havia o fato do técnico da seleção brasileira ser Telê Santana, que houvera o lançado no tricolor em 1973. O Mestre Telê acabou o convencendo a mudar seu comportamento, era isso ou perderia mais uma Copa. Sob controle, Chulapa, foi apenas, Serginho, uma sombra do artilheiro do campeonato brasileiro daquele ano, com 20 gols, e teve uma atuação apagada na Copa do Mundo de 1982. Seus números com a camisa canarinho se resumiram a 22 partidas, desde sua estreia em 12 de outubro de 1977, na vitória por 3 a 0 frente ao Milan, até a fatídica derrota para a Seleção Italiana, por 3 a 2, em 5 de julho de 1982, e 10 gols marcados. Após ser vice-campeão paulista pelo São Paulo em 1982, foi contratado pelo Santos que buscava montar uma equipe competitiva para o campeonato brasileiro de 1983, condição imposta pelo presidente da CBF, Giulite Coutinho, para resgatar a equipe, “bionicamente”, da disputa da Taça de Prata, segunda divisão da competição, presente extensível ao Vasco da Gama, por conta da fraca campanha no campeonato estadual cuja classificação servia de critério para a disputa da competição nacional. No alvinegro da Vila Belmiro teve um grande ano de 1983, sendo vice-campeão brasileiro, e artilheiro da competição com 22 gols, assim como do campeonato paulista, com o mesmo número de gols. As confusões, no entanto, também continuaram. Em 31 de julho daquele ano, no clássico, que acabou empatado sem gols, frente ao Corinthians, após entrar em campo com fraque e cartola, acabou trocando socos e pontapés com o amigo Mauro, zagueiro adversário. Já no ano seguinte, novamente frente ao Corinthians, foi dele o gol da vitória por 1 a 0, em 2 de dezembro de 1984, e que acabou dando fim ao incomodo tabu de 6 anos sem títulos do Santos. Além de campeão paulista, também foi o artilheiro da competição, com 16 gols. Poucos dias depois, já em 1985, se apresentou justamente no adversário da final, como reforço de uma equipe repleta de grandes nomes, como Carlos, De Leon, Dunga, Arturzinho e Casagrande que retornava de um empréstimo ao São Paulo. Aquele time passou a ser conhecida, no papel, e apenas nele, como a Seleção Corintiana. Ao que parece, a presença de muitas estrelas não ajudou a criar um bom clima entre os atletas, a campanha da equipe foi pífia e a trajetória de Serginho no Corinthians durou apenas 11 meses, período em que atuou 38 vezes e marcou 14 gols. Voltou ao Santos em 1986, onde, após disputar um bom campeonato paulista, passou quase todo o segundo semestre sem jogar. Contusões crônicas impediam que permanecesse na ativa, ainda assim no começo de 1987 foi contratado pela equipe portuguesa do Marítimo, onde atuou apenas em 5 partidas e marcou 4 gols. Em 1988, retornou ao Santos, onde ficou até 1990, após uma curta passagem na equipe turca do Malatyaspor. Vestiu a camisa do Santos em 165 jogos, marcando 104 gols, sendo o terceiro maior artilheiro da história do Santos, após a era Pelé, atrás apenas de Neymar e Robinho. Saiu do Santos para atuar em 1991 na equipe vizinha, a Briosa, Portuguesa Santista e logo a seguir no São Caetano, onde marcou, de pênalti, o gol do empate em 2 a 2 frente ao Taquaritinga, em 13 de dezembro de 1992, que garantiu o vice-campeão da divisão intermediária do campeonato paulista daquele ano e o acesso da equipe do ABC paulista para a divisão principal do ano seguinte. Encerrou a carreira em 1993 no Atlético Sorocaba aos 39 anos de idade. Serginho foi um goleador com faro de gol, uma garantia ao torcedor que certamente o placar não acabaria em branco, um irreverente, folclórico e destemperado jogador, um retrato fiel do verdadeiro boleiro, para quem o que importa, sempre, é “bola na rede” e a palavra “perder” não faz parte do vocabulário.



 

 

Zico, o goleiro artilheiro, polêmico e lendário

Autor: José Renato - 16/11/2015   Comentários Nenhum comentário

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José Aparecido Rodrigues nasceu na cidade paranaense de Andirá em 09 de novembro de 1954. Membro de uma família de lavradores trabalhou até os 18 anos nas plantações da família Matsubara, mais especificamente dirigindo um trator. Ainda criança ganhou o apelido pelo qual passou a ser conhecido no futebol, Zico. Tinha como diversão aos finais de semana, bater bola com seus colegas de trabalho e tentar marcar um gol em seu pai, José, que era considerado um dos grandes goleiros da região. Em 1974, a família Matsubara fundou a equipe de futebol, Sociedade Esportiva Matsubara, cujo principal objetivo era revelar jovens talentos. Por orientação do pai, foi fazer testes na equipe para a posição de goleiro. Embora tivesse apenas 1,74 m de altura, era muito ágil e foi aprovado. Pelo fato da equipe do Matsubara, naquele tempo, atuar apenas em competições amadoras, Zico acabou se transferindo para o Nove de Julho da cidade de Cornélio Procópio e logo em seu primeiro ano como profissional, fez parte do elenco que conquistou a divisão de acesso do campeonato paranaense de 1975. Lá ficou até 1977, quando foi para equipe catarinense do Marcílio Dias, retornando em seguida para o futebol paranaense, desta vez para atuar no Toledo. Em meados de 1979 foi contratado pelo Cascavel, onde voltou a ser campeão da divisão de acesso do estadual. O ano de 1980 foi marcante. A equipe caçula na primeira divisão fez uma grande campanha e deve isso muito as atuações de Zico. No quadrangular final da competição, em 16 de novembro, no estádio Theodoro Colombelli, o popular Ninho da Cobra, ao repor a bola em campo com um chutão para frente, acabou surpreendendo o arqueiro rival, Joel Mendes, marcando o segundo gol da vitória por 3 a 0 frente ao Colorado. Duas semanas depois, o Colorado precisava golear o Cascavel por 5 gols de diferença para ser campeão estadual. Chegou a abrir 2 gols de vantagem ainda no primeiro tempo. Com dois jogadores expulso, outros dois atletas do Cascavel não voltaram para a partida após o intervalo. No primeiro lance do segundo tempo, Zico chutou a bola para fora e caiu ao chão sentindo uma duvidosa contusão. Com apenas 6 atletas em campo, abaixo do numero mínimo, o arbitro Tito Rodrigues encerrou a partida. A decisão do titulo paranaense foi para os tribunais e o titulo acabou sendo dividido pelas duas equipes. Zico voltaria aos holofotes em 25 de novembro de 1981, novamente em uma partida decisiva frente o Colorado. As equipes se enfrentavam por uma vaga na Taça de Prata de 1982. Durante a partida, que acabou 2 a 2, após um choque com o atacante Freitas, fraturou o braço. Uma vez que as substituições já tinham sido feitas, Zico permaneceu em campo e foi para a decisão por pênaltis. Após defender a cobrança batida pelo atacante Popéia, a disputa continuava empatada. Nas cobranças alternadas, Zico marcou a sua penalidade e em seguida defendeu, de cabeça, a bola chutada pelo goleiro Joel Mendes. O arbitro mandou voltar, alegando atitude antidesportiva. Na nova cobrança, a bola foi batida para fora. A vaga era do Cascavel. Em 22 de setembro de 1982, inconformado pelo gol impedido do União Bandeirante, na derrota do Cascavel por 2 a 1,em partida válida pelo campeonato paranaense, resolveu protestar com a arbitragem. Ao receber uma bola recuada, sentou sobre ela. A confusão foi generalizada e acabou com invasão da torcida rival. Ao final da temporada foi contratado para atuar pelo Colorado que disputaria a Taça de Ouro, a primeira divisão do campeonato brasileiro de 1983. Em sua primeira partida no estádio do Maracanã, em 2 de fevereiro de 1983, frente ao Botafogo, após o intervalo da partida, o arbitro, Gílson Ramos Cordeiro, apitou o reinicio da partida sem notar que Zico ainda não voltara do vestiário. Ao notarem isso, os atletas do alvinegro tentaram, em vão, desesperadamente chutar em direção do gol vazio. A cena do goleiro correndo em direção do gol com a bola já rolando, e gritando “olha eu aqui, olha eu aqui...”é, sem dúvida alguma, uma das mais engraçadas da história do maior estádio do mundo. O árbitro parou o jogo e deu bola ao chão. A partida acabou sem gols e ao final dela, Zico se dirigiu ao juiz para pedir desculpas pela trapalhada dizendo: “o estádio é muito grande, por isso é preciso prestar atenção a tudo o que acontece”. Embora tenha feito um bom campeonato com o Colorado, ainda naquele ano foi vendido ao Pinheiros. Após uma breve passagem no Comercial do Mato Grosso do Sul, durante o ano de 1984, retornou ao Pinheiros, onde ficou até 1985, saindo de volta ao Cascavel, onde era considerado um herói. Com 31 anos, por conta da demissão do técnico Mosquito, e pelo fato de estar contundido, chegou a atuar como técnico, com a condição de ficar no banco com o uniforme de goleiro. Não queria passar a imagem que teria aposentado. Saiu do Cascavel em 1987, contratado pelo CSA de Alagoas. No ano seguinte defendeu o ASA de Arapiraca. Em 1989 retornou ao Paraná, para atuar no Grêmio Maringá e encerrar a carreira no Sport de Campo Mourão em 1990. Zico foi um goleiro de momentos únicos, um protagonista em ocasiões inusitadas, um personagem real que certamente poderia fazer parte de qualquer lenda que tenha o futebol como plano de fundo.



 

 

O Deus Negro da Zaga, Lula Pereira

Autor: José Renato - 09/11/2015   Comentários 1 comentários

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O menino Luiz Carlos Bezerra Pereira nasceu na cidade pernambucana de Olinda em 6 de junho de 1956. Passou sua infância no pequeno município de Salgadinho, morando com sua mãe e irmã na casa do tio, Zé Paulo, e seus nove filhos. A vida era muito dura e as brincadeiras logo foram substituídas por atividades que ajudassem a reforçar a mesa da família. Durante a semana, catava mariscos, que costumam viver no meio da lama. Já aos finais de semana, tomava rumo dos estádios de Recife para vender picolés e laranjas aos torcedores que assistiam as grandes equipes da cidade. A necessidade fez com que os estudos fossem deixados de lado naquele momento. O futebol era sua grande paixão e incentivado pelo tio Zé, sua grande referência de vida, que fora jogador do América de Recife e do Fluminense do Rio de Janeiro, logo as peladas se tornaram uma rotina diária. Seu inicio como atleta aconteceu defendendo a equipe amadora da sua cidade, o Jet. Em 1971, por conta de sua grande estatura, não aparentava ter apenas 15 anos, chamou a atenção de um olheiro do Sport, que logo o convidou para fazer testes na Ilha do Retiro. Aliás, foi nesta época que, enquanto batia uma pelada, uma das pessoas com quem jogava levou uma edição da revista Placar e mostrou seu pai, Geraldo Pereira, em uma foto da equipe baiana do Jequié. Surpreso, pegou a revista e levou a sua mãe para que confirmasse. Foi desta forma que conheceu seu pai. Preparou uma carta e mandou ao pai. Ao final daquele ano, 1971, pegou um ônibus e foi até Feira de Santana para conhecê-lo. Algo marcante. Já sob a alcunha de Lula, foi aprovado para atuar no Leão. Enfim o futebol passou a ser uma possibilidade real de crescer na vida, deixando, de vez, a lama dos mariscos para trás. Sua estreia como titular na equipe principal aconteceria em 26 de janeiro de 1973, com 16 anos, no empate por 1 a 1 frente o Botafogo da Paraíba, em partida amistosa. Lançado pelo ex-goleiro paraguaio Juan Perez, que assumira o cargo de técnico da equipe, Lula passou a ganhar destaque na equipe com a chegada do técnico Otacílio Pires de Camargo, o Cilinho. Embora não tenha sido campeão naquele ano, Lula fez um ótimo campeonato pernambucano, sendo indicado com uma das grandes revelações da competição. O ano de 1975 foi marcante para a sua carreira. No primeiro semestre foi campeão pernambucano pelo Sport, tendo um importante papel para o fim de um incomodo tabu de quase 13 anos sem títulos da equipe rubro-negra. Campeão, diante das dificuldades em renovar seu contrato, teve seu passe estipulado na Federação Pernambucana de Futebol. Coube ao rival Santa Cruz fazer uma campanha junto à torcida para adquirir recursos para contratá-lo. A estreia de Lula, no entanto, aconteceu em uma partida que ainda é uma mancha na historia da equipe tricolor. Em 10 de setembro de 1975, na derrota por 1 a 0 frente ao Internacional, em partida válida pelo Brasileirão, a equipe pernambucana ficou com número insuficiente de atletas, menos de 7 jogadores, por conta de expulsões e simulações de contusão. O próprio Lula foi expulso naquele dia. A chegada do técnico Paulo Emílio, no entanto, mudou o astral da equipe que fez a mais bela campanha de um time nordestino, até então, em campeonatos brasileiros, ao chegar as semifinais da competição. Juntamente com Levir Culpi, Lula formou uma dupla de zaga que se destacou naquele ano, em uma equipe que também contou com outros importantes nomes, tais como os de Carlos Alberto Barbosa, Givanildo, Ramon, Nunes e Luís Fumanchu. Zagueiro que jogava duro, muito aplicado na marcação e que tinha um ótimo cabeceio, Lula também costumava se aventurar ao ataque, o que possibilitou que marcasse gols importantes. Em 26 de outubro de 1975, por exemplo, o Santinha perdia de 1 a 0 para o Palmeiras, no Parque Antarctica, quando Lula empatou o jogo que acabaria com a vitória pernambucana por 3 a 2. Aquele jogo foi considerado o grande divisor de águas da grande campanha da equipe da Cobra Coral. Conquistou três títulos pernambucanos com o Santa Cruz, em 1976, 1978 e 1979. Após o campeonato brasileiro de 1980, foi negociado junto ao Ceará Sporting Clube, onde passou a fazer dupla de zaga com seu ex-companheiro de Sport, Pedro Basílio. Sua estreia com a camisa alvinegra aconteceu em 22 de junho de 1980, em partida válida pelo campeonato cearense, na derrota por 1 a 0 frente ao Ferroviário. Embora já tivesse muitos títulos em seu currículo, Lula tinha apenas 23 anos e muita lenha para queimar. Não por acaso se transformou em um dos líderes do Vozão durante os quase 7 anos em que defendeu suas cores, período em que conquistou 4 títulos cearenses, em 1980, 1981, 1984 e 1986. Segundo muitos torcedores alvinegros, é um dos maiores nomes da história do clube. Não são poucos os fatos que marcaram a sua importância junto ao “Alvinegro de Porangabucu”. Em 2 de julho de 1986, por exemplo, em jogo válida pelo campeonato cearense, no estádio Presidente Vargas, frente o Guarany de Sobral, a partida estava dura, e após muito pressionar o Ceará abriu o placar, 1 a 0. Os jogadores foram em bloco comemorar com a torcida. Aproveitando o momento de distração, os atletas sobralenses reiniciaram a partida rapidamente, antes que os alvinegros voltassem para seu campo. O resultado foi o gol de empate, 1 a 1. Logo a seguir, o Ceará voltou ao ataque e marcou 2 a 1. Desta vez, apenas um jogador alvinegro não foi comemorar, Lula. Ele ficou em pé no circulo central, segurando a bola, enfrentando toda a equipe do Guarany que tentava, novamente, antecipar o reinicio da partida. A nova saída só foi dada, quando todos os atletas do Ceará já tinham retornado da comemoração e Lula resolveu entregar a bola aos adversários. Ao final, a vitória por 3 a 2 foi um importante passo para aquela equipe que conquistaria o título cearense em 24 de agosto, ao vencer o Fortaleza, por 2 a 1. Por conta do rompimento do tendão de Aquiles, Lula encerrou sua carreira ao final daquele ano, ainda com 30 anos. Lula foi um vencedor no futebol. Um digno e, infelizmente, raro exemplo de alguém que soube fazer do futebol, um legítimo meio para crescer e mudar seu futuro e de sua família. Um homem valoroso que é sempre lembrado com sorriso pelos torcedores dos clubes que defendeu.



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